Uma estranha mistura de orgulho e responsabilidade
Domingo, 8 de Agosto de 1976
A manhã começou tranquila, sem pressa nem pressentimentos. Levantei-me, preparei-me com calma, tomei o pequeno-almoço e deixei que o jornal me conduzisse por notícias e pequenas histórias da cidade. Depois, ainda com o sol a subir, treinei sozinho, entre socos e pontapés, sentindo o corpo acordar e a mente ganhar clareza, como se cada movimento tivesse um sentido que ia além do físico.
De tarde, acompanhei o meu pai a casa do Mazola. Entrar naquele ambiente fez-me perceber de imediato a importância do lugar e das pessoas que ali circulavam. A conversa foi descontraída no início, sobre acontecimentos da nossa terra, acontecimentos pessoais, até que se virou para o meu trabalho. Mazola falou com seriedade, mas também com apreço, sobre a ajuda que eu estava a dar aos mineiros, muitos dos quais tinham perdido direitos e meios de subsistência. Sentir que o que eu fazia tinha peso, que podia realmente fazer diferença na vida de outros, trouxe-me uma estranha mistura de orgulho e responsabilidade. Havia ali algo mais do que simples tarefas: havia sentido, e isso aquecia-me o coração.
Quando regressámos a casa, o jantar já nos esperava, mas a rotina da noite tomou caminhos diferentes. O meu pai regressou ao trabalho, a minha mãe e as minhas irmãs partiram para uma festa próxima, e eu fiquei sozinho, rodeado pelo silêncio da casa. Entre as sombras que se alongavam pelas paredes, os meus pensamentos vaguearam sem direção fixa. Havia um conforto naquela solitude, mas também um eco de inquietação — um espaço onde podia medir, com honestidade, o que sentia, o que queria e o que temia. Era uma noite de introspecção, um intervalo em que o mundo lá fora parecia distante, e cada reflexão se tornava mais nítida na quietude do meu próprio quarto.
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