Um dia suspenso
Sábado, 7 de Agosto de 1976
Hoje foi um dia estranho, desses que parecem começar com intenção e acabam em pausa.
Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e fui ao CRM para falar com uma pessoa. O edifício estava fechado. Fiquei ainda algum tempo no arquivo, à espera, como se a porta pudesse decidir abrir-se por respeito à minha persistência. Não abriu. Esperei o suficiente para perceber que não era ali que o dia iria acontecer.
Voltei para casa.
Ao entrar, pendurei o saco de treino e, desligado do presente, comecei a treinar. Quando o exterior falha, o corpo torna-se território seguro. Repeti movimentos, concentrei-me na respiração. Talvez precisasse disso mais do que imaginava.
Almocei no início da tarde e depois deixei-me ficar diante da televisão. Não era exactamente interesse — era uma forma de preencher o intervalo. Há dias em que não se trabalha no CRM, mas continua-se a trabalhar por dentro.
Pouco depois de o meu pai regressar do café, chegou o Jorge, pretendente à mão da minha irmã. A visita já estava anunciada, por isso não houve surpresa. O meu pai recebeu-o com cordialidade medida. Observou-o. Avaliou-o. Fez perguntas indirectas, como quem mede a solidez de uma tábua antes de a pregar.
O Jorge ficou para lanchar. Ficou para jantar. Falava com respeito, mostrava-se atento. A impressão que deixou foi boa — e o meu pai disse-lho claramente. Não é homem de elogios fáceis.
Fiquei a observar tudo com uma curiosidade silenciosa. As relações adultas são diferentes das amizades juvenis. Aqui não há cortes bruscos nem ordens transmitidas por terceiros. Há intenções claras, há compromisso à vista. Ou pelo menos a promessa dele.
Pensei no contraste.
Nos últimos dias, tenho assistido a um afastamento sem palavras da parte do Benjamim, e por influência dele, também do Manel. Hoje, em minha casa, vi o contrário: um homem que entra pela porta da frente, assume o que quer, apresenta-se. A maturidade talvez esteja aí — na frontalidade.
Quando o meu pai saiu para trabalhar, o Jorge ficou ainda algum tempo. Foi-se embora pouco antes da televisão fechar. A casa voltou ao silêncio habitual.
Hoje não houve CRM. Não houve papéis, nem pó, nem cadastros. Houve espera. Houve treino. Houve observação.
E talvez tenha sido isso o mais importante.
Nem todos os dias servem para avançar. Alguns servem para parar e perceber em que ponto estamos. E eu começo a ver com mais nitidez quem sou quando ninguém me chama — e quando já não corro atrás de quem se afasta.
O descanso também constrói. Só que por dentro.
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