O que se constrói por dentro

Sexta-feira, 6 de Agosto de 1976

De manhã voltei ao capoeiro com o meu pai. O trabalho de ontem não chegara. A madeira ainda precisava de ser ajustada, pregada, alinhada. Há construções que exigem paciência e repetição. A manhã passou entre marteladas e serrim, e mesmo assim não foi suficiente para terminar.

Há qualquer coisa de honesto nisso: nem tudo fica pronto quando queremos.

Almoçámos. Descansámos um pouco. O calor de Agosto abranda qualquer impulso heróico. Perto das cinco lanchei e fui com o meu pai ao café. Jogámos damas. Depois bilhar. Entre jogadas e pequenas provocações amistosas, senti uma leveza que nos últimos dias tinha ficado escondida.

O café é um palco curioso. Homens que falam alto, outros que observam em silêncio. Ali, ninguém sabe das pequenas rupturas que se vivem fora dali. As amizades que esfriam, os afastamentos sem explicação. No tabuleiro, as regras são claras: cada peça move-se segundo a sua natureza. Quem hesita perde.

Tenho pensado muito nestes dias.

O voluntariado no CRM continua a chamar-me, mesmo quando lá vou sozinho. Sinto que aquela cave me ensinou mais sobre responsabilidade do que qualquer discurso. Ali, ninguém me obriga. Vou porque quero. E essa diferença começa a pesar — mas é um peso que me estrutura.

O afastamento do Benjamim, e por arrasto o do Manel, deixou um vazio. Não dramático, mas real. É como uma cadeira que fica vazia numa mesa onde nos habituámos a ver alguém sentado. No início estranha-se. Depois, aprende-se a não olhar para ela.

Talvez esteja a aprender que as relações não são posse. São escolha. E se alguém deixa de escolher estar, não cabe a mim implorar que fique.

Jantámos às oito. O meu pai saiu novamente para trabalhar. Fiquei a ver televisão até ao fecho da emissão. Quando o ecrã se apagou, o silêncio da casa impôs-se.

Treinei até ele regressar. Sozinho, no pátio, repetindo movimentos. A disciplina tem esta virtude: organiza o que por dentro ameaça dispersar-se. Cada gesto bem executado é uma afirmação silenciosa de controlo.

O capoeiro ainda não está terminado. As amizades também não sei em que ponto ficaram. Mas continuo a trabalhar — madeira de manhã, carácter à noite.

E começo a perceber que crescer é isto: aceitar o que não se controla e reforçar aquilo que depende apenas de nós.


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