Madeira, silêncio e escolhas

Quinta-feira, 5 de Agosto de 1976

Hoje o dia começou longe dos arquivos e das caves poeirentas. Fui com o meu pai ao monte buscar toros de madeira. Duas viagens bastaram para carregar o que era preciso. O trabalho era físico, directo, sem ambiguidades: cortar, carregar, alinhar. O corpo entende estas tarefas sem necessidade de explicações.

De regresso, passámos a manhã a compor uma capoeira. Martelo, tábuas, pregos. O meu pai fala pouco quando trabalha. Eu também. Mas há um entendimento silencioso que vale mais do que muitas conversas. Ao contrário das relações que se embaraçam em palavras, a madeira responde ao gesto certo. Se o prego é bem batido, fica. Se não é, entorta-se — e temos de recomeçar.

Almoçámos por volta da uma. Descansámos um pouco. Depois voltámos ao trabalho até a tarde começar a perder luz. Lanchámos a meio, como quem faz uma pausa merecida, e só quando o escuro se insinuou é que parámos de vez. Banho, jantar. O meu pai saiu para mais uma noite de trabalho.

E eu fiquei a pensar.

Nos últimos dias tenho descido à cave do CRM como quem desce a uma responsabilidade que escolheu. O voluntariado começou quase como curiosidade, mas está a tornar-se compromisso. Há qualquer coisa de sério em organizar o passado de homens que deram o corpo à mina. Sinto que cresci ali, entre fichas e radiografias, mais do que em muitas aulas.

Ao mesmo tempo, as relações à superfície parecem mais frágeis do que os papéis que manuseio.

O afastamento do Benjamim não me sai da cabeça. Não houve confronto, não houve explicação. Apenas um corte limpo. E o Manel, influenciado por ele, começou também a distanciar-se. Não de forma declarada, mas perceptível. Pequenos gestos, pequenas ausências.

É estranho como alguém pode deixar de estar sem dizer que vai.

Não sinto raiva. Sinto uma espécie de claridade. Percebo agora que a amizade, como a madeira, precisa de firmeza. Se depende demasiado da opinião de terceiros, entorta ao primeiro golpe.

Talvez este seja o verdadeiro início da independência de que falei há dias. Ir sozinho ao arquivo. Trabalhar sem companhia. Não implorar explicações. Continuar.

À noite vi televisão, mas estava mais atento aos meus próprios pensamentos. Crescer não é um momento grandioso. É isto: aceitar que algumas pessoas se afastam, que outras ficam, e que o caminho não espera por ninguém.

Hoje trabalhei madeira com o meu pai. Nos últimos dias tenho trabalhado carácter comigo mesmo.

E suspeito que esse é o trabalho mais exigente de todos.


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