O dia em que alguém fecha a porta

Quarta-feira, 4 de Agosto de 1976

O Manel veio acordar-me logo de manhã. Estranhei. Não era hábito. Levantei-me ainda meio turvo de sono, e foi no caminho para comprar o jornal que ele me disse, quase sem jeito, que viera por ordem do Benjamim buscar algumas coisas que ele deixara lá em casa.

Não houve discussão. Não houve explicação. Apenas isso: “por ordem do Benjamim”.

Ouvi calado. Há momentos em que a dignidade é não reagir. Continuei o caminho, comprei o jornal como sempre, como se o mundo não tivesse acabado de fazer um pequeno desvio. Antes de regressar, passei por casa da pessoa com quem falara no dia anterior para recolher um nome — mais um para procurar no arquivo.

Em casa, entreguei ao Manel tudo o que havia para levar. Objectos pequenos, mas com o peso simbólico de uma decisão que não partira de mim. Não perguntei nada. Às vezes, perguntar é dar importância demais ao que já está decidido.

Fui para o arquivo. Procurei o cadastro pedido com a mesma concentração dos dias anteriores. Entre fichas e processos, encontrei o nome. Mais um homem resgatado do pó. Há qualquer coisa de reconfortante em cumprir uma tarefa concreta quando as relações humanas se tornam nebulosas.

À tarde, depois de almoçar, levei o cadastro a quem mo pedira. O gesto pareceu-me simples, mas tinha valor: eu estava a cumprir a minha parte, independentemente das pequenas rupturas que se insinuavam à volta.

De regresso a casa, li um pouco. Depois passei o resto da tarde entre gravações e música. Há dias em que a música não serve para dançar; serve para organizar o que cá dentro ainda não encontrou palavras.

À noite jantei. Pela primeira vez o meu pai foi trabalhar de noite. A casa ficou diferente, como se uma peça essencial tivesse sido deslocada. Vi televisão, mas era apenas ruído de fundo. Acabei por me sentar a conversar com a minha irmã Fernanda. Falar assim, sem grandes temas, tem qualquer coisa de âncora.

Hoje percebi que as relações podem cortar-se sem aviso, como um fio esticado demais. Não sei exactamente o que motivou o Benjamim. Talvez um mal-entendido, talvez orgulho, talvez nada de muito sério — às vezes as pessoas afastam-se por razões pequenas que, vistas de perto, parecem enormes.

O que sei é isto: continuo a ir ao arquivo. Continuo a cumprir. Continuo a crescer.

E há portas que se fecham para nos obrigarem a aprender a abrir outras.


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