Sozinho também se cresce

Terça-feira, 3 de Agosto de 1976

A manhã começou simples: levantar, pequeno-almoço, a rotina já quase automática. Fui a casa do Manel para seguirmos juntos para o arquivo, como nos dias anteriores. Mas a vida raramente obedece a planos silenciosos.

O Benjamim estava com ele. Falavam animadamente. Não sei o que foi dito, mas bastou para o demover de ir. Senti aquele instante estranho em que a expectativa cai no chão sem fazer barulho. Não insisti. Virei costas e fui sozinho.

E foi ali que o dia mudou de tom.

Trabalhei toda a manhã sem parar. Sozinho, o silêncio da cave pareceu maior, mas também mais meu. Peguei em cadastros, alinhei fichas, organizei processos. O pó continuava o mesmo, o caos ainda resistia, mas havia qualquer coisa diferente dentro de mim. Não estava ali por companhia. Estava ali porque decidira estar.

Vim almoçar perto do meio-dia. À tarde, depois de comer, deixei-me descansar um pouco até às duas. O corpo começava a acusar o esforço acumulado dos últimos dias. Voltei ao arquivo e mantive o ritmo até perto das cinco. Só então regressei a casa para lanchar.

O cansaço era honesto. Não era preguiça, era trabalho feito. Por isso, depois de lanchar, não voltei à cave. Deitei-me um pouco até à hora do jantar, como quem aceita que o corpo também tem voto na matéria.

A Academia estava em férias, mas isso não me deu desculpa. Depois de jantar treinei em casa. Movimentos repetidos, concentração, disciplina. Treinar sozinho exige outra força — não há aplausos, não há correcções, apenas a consciência.

Mais tarde saí com o Boby, o meu canito. Caminhámos devagar. Ele puxa pela trela como se o mundo fosse sempre urgente; eu, pelo contrário, começo a perceber que há pressas que não valem a pena.

Ainda passei pelo Centro para falar com um dos dirigentes. Conversa breve, mas suficiente para sentir que já não era apenas o rapaz que ajuda. Começava a ser alguém em quem se confia.

Hoje aprendi uma coisa simples: quando os outros mudam de caminho, isso não nos impede de continuar o nosso.

A independência não chega com discursos. Chega assim — num dia comum, quando se escolhe ir, mesmo sozinho.


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