Entre papéis e Marte
Segunda-feira, 2 de Agosto de 1976
Acordei às seis e meia, mas não foi o dia que me chamou — foi o Manel, a bater à porta para levar a minha bicicleta. Eu limitei-me a abrir os olhos ao mundo e voltei a fechá-los. Só me levantei verdadeiramente já perto das nove e meia, quando a bicicleta regressou a casa e comigo trouxe a obrigação de começar.
Pequeno-almoço simples. Reguei o morangueiro que o Manel me dera a semana passada — aquele gesto pequeno, quase doméstico demais para quem passa o dia a remexer em vidas alheias. Depois fui ter com o Manel e seguimos para o arquivo do CRM.
A cave já não era o caos absoluto do primeiro dia. Havia sinais de ordem, como se o esforço de ontem tivesse deixado marcas visíveis. Ainda assim, o trabalho continuava paciente e minucioso. Cada cadastro aberto era uma pequena revelação. Nomes, datas, acidentes, exames médicos. Homens reduzidos a fichas, mas que um dia tiveram voz, família, cansaço. À medida que organizávamos, sentia que dávamos forma a algo maior do que nós.
Vim almoçar a casa perto do meio-dia. De tarde esperei pelo Manel — esperar faz parte da amizade, tal como trabalhar lado a lado. Voltámos ao arquivo e retomámos a nossa escavação de papel.
A meio da tarde, quando regressávamos para lanchar, encontrámos o Benjamim. Chamou-me à parte, com aquele ar de quem guarda um segredo maior do que o próprio corpo, e disse-me que tinha lido num jornal uma notícia que comprovava a existência de vida em Marte.
Vida em Marte.
Fiquei suspenso por um instante. Entre a cave poeirenta e os cadastros dos mineiros, de repente o universo abriu-se. Saí dali a pensar que talvez o mundo fosse maior do que o que nos cabe nos olhos. Quando cheguei a casa contei a novidade como se tivesse descoberto um novo continente.
Mais tarde, já com o jornal nas mãos, percebi que a notícia falava de reacções, de hipóteses, de indícios. Nada conclusivo. A vida em Marte ficava em suspenso — como quase tudo o que verdadeiramente nos importa. Ainda assim, a ideia bastou-me. Há qualquer coisa de profundamente humano em querer que não estejamos sozinhos.
Depois do lanche voltámos ao arquivo. Mais pó, mais nomes, mais ordem a nascer do desleixo.
À noite, antes do jantar estar pronto, peguei num livro de ficção. Talvez por causa de Marte, talvez por causa do cansaço, apeteceu-me viajar sem sair da cadeira. O meu pai chegou, folheou o jornal, comentou a notícia com prudência. A ciência avança devagar — não se deixa entusiasmar por rumores.
Jantei. Vi televisão. E ali, entre imagens tremidas no ecrã, pensei que talvez a vida mais extraordinária não estivesse em Marte nem nas páginas dos jornais.
Talvez estivesse aqui mesmo — neste dia comum que, visto de longe, é apenas mais um. Mas visto de dentro, já começa a desenhar o homem que hei-de ser.
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