Trabalho voluntário
Domingo, 1 de Agosto de 1976
Hoje comecei algo que, sem o saber, me começava a transformar.
De manhã, eu e o Manel entrámos na cave do edifício do CRM como quem entra num lugar esquecido pelo tempo. O ar era pesado, húmido, cheirava a papel velho e a abandono. O Mazola entregou-nos a tarefa com a naturalidade de quem confia: procurar cadastros, fichas, radiografias de mineiros. Nomes. Histórias comprimidas em papel amarelado. Vidas reduzidas a números de processo.
O trabalho era simples na teoria, brutal na prática. Três divisões da cave estavam atulhadas de arquivos espalhados pelo chão, deixados ao abandono pelos antigos administradores das minas. Não havia ordem. Havia montes. Havia pó. Havia décadas de desleixo.
Agachámo-nos, sentámo-nos no chão, abrimos caixas, folheámos dossiês. Cada nome que encontrávamos era quase um resgate. Eu sentia que não mexia apenas em papéis — tocava numa espécie de justiça atrasada.
Depois do almoço voltámos à cave. A luz entrava fraca pelas pequenas janelas altas, como se até o sol tivesse dificuldade em descer ali. Continuámos a vasculhar ficheiros, a separar, a organizar o caos. O Manel, às vezes, fazia um comentário qualquer para quebrar o peso da tarefa, mas trabalhávamos com uma concentração que me surpreendia em nós.
Ao fim do dia, com as mãos sujas de pó e os olhos cansados de decifrar letras antigas, subimos à biblioteca do Centro. Requisitámos alguns livros e trouxemo-los para casa, como quem leva ferramentas para continuar a crescer por dentro. Senti que aquele espaço começava a ser mais do que um edifício — era uma escola paralela, sem campainhas nem notas, mas com exigência real.
Depois do jantar, eu e o Manel saímos para dar um passeio. Precisávamos de ar. O domingo tinha sido passado entre paredes, entre papéis, entre memórias alheias. Caminhámos sem destino certo, só para retemperar forças. A noite estava morna. Falámos pouco. Às vezes, o silêncio entre amigos é apenas descanso.
Hoje não foi um domingo qualquer. Foi o primeiro dia em que me senti útil fora de casa, fora da escola, fora das brincadeiras. Não era trabalho pago. Era responsabilidade. E isso pesa — mas é um peso que endireita as costas.
E sem dar por isso, Agosto começava. E eu também.
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