A ausência e a angústia

Quinta-feira, 30 de Setembro de 1976

Há gestos que se tornam rituais. Desde Março do ano passado que, antes de escrever aqui, faço sempre o mesmo: abro o primeiro diário, desfolho devagar, e deixo que os olhos toquem a fotografia da Dila. Não é apenas uma imagem. É prova. É âncora. É a confirmação de que aquilo que vivi não foi invenção minha.

Hoje fiz o mesmo movimento de sempre.

Página a página.

E nada.

A fotografia dela desaparecera. A minha também.

Fiquei primeiro imóvel, como quem leva uma pancada e ainda não sente a dor. Depois veio a zanga. Uma zanga seca, quase infantil. Revirei folhas, abri gavetas, sacudi livros, procurei por todo o lado como se a insistência pudesse obrigar a foto a reaparecer.

Nem sinal.

Sumiu.

E com ela, durante alguns minutos, pareceu-me que sumia também a última prova concreta da existência dela na minha vida. É estranho como reduzimos o infinito de um sentimento a um rectângulo de papel. Mas a verdade é crua: aquela fotografia era tudo o que me restava de palpável.

Senti um aperto que não sei descrever sem parecer exagerado. Não era apenas uma foto perdida; era a sensação de estar a ser apagado da história.

Procurei explicações. Nenhuma. Talvez alguma das minhas irmãs mais novas tenha mexido nas minhas coisas, sem maldade, apenas curiosidade. Talvez tenham achado graça. Talvez tenham escondido. Não sei.

A verdade é que não confrontei ninguém. Preferi esperar. Às vezes a precipitação só piora o que já dói.

Resguardei-me numa ideia quase ingénua: se a minha fotografia também desapareceu, talvez estejam juntas. Talvez alguém as tenha guardado lado a lado, como estavam. Essa possibilidade deu-me um fio de consolo. Pelo menos, na ausência, continuam unidas.

Hoje aprendi uma coisa amarga: quando não temos controlo sobre o que guardamos por dentro, agarramo-nos com força ao que podemos guardar por fora. E quando isso nos é tirado, ficamos nus.

Mas também sei isto — e digo-o para não me deixar afundar —: se a fotografia desapareceu, a memória não desaparece com ela. O que foi vivido não se evapora porque uma foto se perdeu.

Ainda assim, dói.

E esta noite escrevo sem a imagem que me acompanhava. Só com a lembrança. Que é mais frágil, mas talvez mais verdadeira.


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