O peso que endireita os ombros
Quarta-feira, 29 de Setembro de 1976
Hoje senti o peso da responsabilidade como quem sente um casaco novo: primeiro estranha-se, depois ajusta-se ao corpo.
No CRM, no meio daquela realidade dura dos antigos trabalhadores das minas — homens que deram a vida à terra e ficaram com as mãos vazias — fui apresentado à assistente social com quem passarei a colaborar. Olhou-me de alto a baixo com uma reserva discreta. Não foi desconfiança maldosa; foi prudência. A minha idade não inspira, à partida, grandes garantias.
Perguntou-me o que fazia ali. A pergunta vinha embrulhada noutra: “será que este rapaz sabe ao que vem?”
Não respondi com discursos. Mostrei-lhe o que tinha feito. Os arquivos que encontrei espalhados pelos quatro cantos dos velhos escritórios, papéis misturados como folhas varridas pelo vento, tudo desordenado. Expliquei-lhe como organizei processos, como cataloguei documentos, como devolvi alguma dignidade administrativa àquilo que parecia um naufrágio de papel.
Enquanto falava, reparei que o olhar dela mudava. A reserva cedeu lugar a algo mais atento. No fim, pareceu-me surpreendida. Talvez até agradada. Não disse grandes elogios — e ainda bem. Prefiro respeito silencioso a palmadinhas na cabeça.
Senti, nesse momento, que crescer não é fazer anos; é ser levado a sério.
A manhã foi longa. A responsabilidade não é leve, mas tem esta virtude: afasta futilidades. Obriga-nos a ser inteiros.
De tarde, o Manel apareceu. E a solidão que me acompanhara até então encolheu-se, como sombra ao meio-dia. Falámos. Não de fenómenos insólitos nem de papéis organizados, mas do que realmente me atravessa por dentro. Às vezes basta alguém que escute sem interromper para que o mundo deixe de parecer tão fechado.
Disse-lhe coisas que não digo facilmente. Não dramatizei. Apenas pus palavras onde antes havia silêncio.
É curioso: no CRM sou visto como capaz. No DIFI sou coordenador. Mas é na amizade que encontro o espaço onde posso ser simplesmente eu — sem títulos, sem provas, sem demonstrações.
Hoje percebi que a responsabilidade pesa, sim. Mas também nos dá coluna vertebral.
E talvez seja isso que me esteja a acontecer: estou a aprender a sustentar-me por dentro.
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