Entre mapas do céu e silêncios da terra
Terça-feira, 28 de Setembro de 1976
O entusiasmo de ontem ainda pairava no ar, como pó depois de uma sala ser varrida. Hoje o DIFI já não era apenas um nome bonito escrito numa folha. Era responsabilidade.
Fui para o Centro com a sensação estranha de quem carrega algo invisível aos ombros. Coordenador. A palavra não me pesa, mas obriga-me a ser mais direito, mais atento, menos distraído. Já não posso ser apenas o rapaz curioso; tenho de ser o que aponta caminhos.
Passámos parte da tarde a discutir os primeiros passos formais do grupo. Falar de arquivos, de critérios para aceitar relatos, de como evitar fantasias descontroladas. Alguns queriam correr antes de aprender a andar. Tive de os travar com calma. Liderar não é mandar; é saber dizer “não” sem ferir demasiado.
Houve pequenos atritos. Nada de grave. Apenas egos a aprender a caber dentro de uma ideia maior. No fim, creio que perceberam que não quero protagonismo, quero estrutura. Sem ordem, o insólito transforma-se em anedota.
Quando regressei a casa, o silêncio esperava-me. É curioso: lá fora falam comigo, escutam-me, seguem-me até; cá dentro, as paredes não respondem. Sentei-me na cama e fiquei a olhar para as mãos. São as mesmas que ontem foram eleitas para coordenar um departamento. E, no entanto, continuam vazias no que mais importa.
Penso nela — não com desespero, mas com aquela pontada persistente que não desaparece. Posso investigar luzes no céu, escrever relatórios, organizar reuniões. Mas continuo sem saber como iluminar a distância que existe entre dois corações quando um deles hesita.
Talvez o verdadeiro fenómeno insólito seja este: crescer por fora e continuar adolescente por dentro.
Ainda assim, não troco o que está a nascer. O DIFI pode ser o começo de algo maior do que as nossas idades. E eu? Eu continuo a aprender a ser — líder, homem, e talvez um dia, amado sem reservas.
Amanhã haverá mais decisões. E eu estarei lá.
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