Quando um nome cria destino
Segunda-feira, 27 de Setembro de 1976
Hoje não foi um dia qualquer. Foi um daqueles dias em que se sente que algo muda de lugar — mesmo que por fora tudo pareça igual.
O grupo ganhou nome. Já não éramos apenas um punhado de curiosos a falar de luzes no céu e relatos improváveis. Passámos a chamar-nos DIFI – Departamento de Investigação de Fenómenos Insólitos. O nome soou sério, quase solene, como se estivéssemos a assinar um tratado invisível com o futuro.
Começa a nascer uma ideia. Não apenas um grupo, mas um conceito. Miúdos da minha idade, cheios de perguntas, e até alguns graúdos que nos observam com aquela mistura de cepticismo e interesse. Alguns riem-se por dentro. Outros escutam. E há os que começam a levar-nos a sério. Isso nota-se no olhar.
A reunião foi agitada. Vozes cruzadas, opiniões a disputar espaço, pequenas lutas de vaidade — nada que não faça parte do crescimento. No meio desse ruído, apresentei as minhas ideias. Falei do que poderíamos ser, da organização, dos relatórios, da disciplina, da credibilidade. Falei como se já visse o grupo daqui a anos, sólido, respeitado, autónomo.
E eles elegeram-me coordenador.
Coordenador. A palavra ainda ecoa. Não é um título pomposo, mas pesa. Senti qualquer coisa expandir-se dentro de mim — não orgulho vazio, mas a consciência de que fui ouvido. De que acreditaram em mim. De que viram capacidade onde talvez eu próprio duvidasse.
É curioso como o reconhecimento nos faz crescer por dentro. Endireita-nos as costas. Dá-nos uma postura nova.
Pena que esse reconhecimento não atravesse todas as fronteiras.
No que toca às coisas do coração, continuo invisível. Posso organizar ideias, estruturar projectos, liderar reuniões — mas não sei organizar sentimentos, nem liderar silêncios partilhados. Aí sou apenas mais um rapaz à espera que alguém o veja de verdade.
Mas não deixo que isso me diminua. Se hoje fui capaz de dar nome a um sonho colectivo, talvez um dia consiga dar forma ao que trago no peito.
Tudo começa assim: com um nome, uma eleição, uma responsabilidade. E, quem sabe, com a semente de algo maior do que eu próprio.
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