O quarto onde o silêncio faz eco
Domingo, 26 de Setembro de 1976
Há dias que passam como água morna pelas mãos. Este foi um deles. Nem frio, nem quente. Apenas passado.
De manhã, o CRM abriu as portas como quem cumpre um ritual antigo. Entrámos e instalámo-nos no nosso novo espaço — uma sala só nossa. O Centro cedeu-a, talvez por confiança, talvez por cansaço de nos ver espalhados pelos cantos. Juntámos os membros, arrastámos mesas, alinhámos cadeiras, organizámos papéis como se estivéssemos a fundar um pequeno império secreto. Cada objecto no seu lugar, cada pasta arrumada como se o mundo dependesse disso.
E, curiosamente, enquanto alinhava tudo aquilo, senti uma espécie de alívio. As mãos ocupadas são uma bênção. Quando o corpo trabalha, a cabeça cala-se. Ou pelo menos baixa a voz. Durante aquelas horas não pensei em mais nada. Nem nela. Nem no que falta. Nem no que poderia ter sido. Só no espaço, nas paredes nuas que começavam a ganhar significado.
O Manel não apareceu. Deve ter saído com os pais. A ausência dele já não me surpreende, mas deixa sempre um intervalo estranho no dia, como uma frase que fica sem verbo. Habituei-me à sua presença constante e agora noto o vazio.
Regressei a casa e fechei-me no quarto. A porta é fina, mas separa mundos. Lá fora, a casa respira. Cá dentro, sou eu e os meus pensamentos — esses hóspedes que não pagam renda e nunca se vão embora.
Estar sozinho é uma arte difícil. Há dias em que sabe a liberdade; noutros, a abandono. Hoje foi apenas silêncio. Um silêncio pesado, mas suportável. Fiquei ali, entre o tecto e as paredes, a ouvir o que não se diz.
Talvez a verdade seja esta: organizamos salas, criamos grupos, inventamos siglas e cargos para não termos de arrumar o que vai cá dentro. E isso, meu caro diário, não tem prateleiras.
Mas amanhã é outro dia. E mesmo quando nada acontece, alguma coisa se move por dentro. Nem que seja só a consciência de que estou a crescer — à força, como as árvores que ninguém rega, mas que ainda assim procuram luz.
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