A inutilidade aparente das horas
Sábado, 25 de Setembro de 1976
Mais um dia que não pediu licença para existir. Levantou-se, cumpriu-se e passou.
De manhã fui para o CRM. Silêncio. Portas abertas, cadeiras no lugar, papéis arrumados — e ninguém. Nem visitantes, nem pedidos, nem urgências. Fiquei ali sentado, como sentinela de uma fortaleza que não precisava de defesa. A minha mente, sempre pronta a julgar, murmurava: desperdício de tempo. E talvez fosse. Ou talvez não. Às vezes o tempo não é produtivo, é apenas tempo.
A tarde fez eco da manhã. A mesma ausência de acontecimentos, o mesmo arrastar de minutos que pareciam não ter destino. Em casa, o relógio trabalhou mais do que eu. Tic-tac, tic-tac — disciplinado, implacável. Eu limitava-me a assistir.
Nem o Manel apareceu. A sua presença costuma rasgar a monotonia como uma pedra atirada a um lago parado. Hoje, nem pedra, nem lago — apenas a superfície lisa do nada. Tive de enfrentar a indiferença sozinho. Se foi uma batalha? Não sei. Não senti glória nem derrota. Apenas permaneci. E às vezes permanecer já é um acto de resistência.
Há dias que não deixam marcas visíveis. Cumprimos a obrigação de existir e eles cumprem a obrigação de passar. Sem drama, sem aplauso, sem memória digna de registo. O ser humano fica ali, quase irrelevante perante o mecanismo perfeito das horas.
Mas mesmo nesses dias há qualquer coisa que se move, ainda que imperceptível. Talvez um músculo invisível da alma que aprende a suportar o vazio. Talvez seja isso crescer — não apenas nos dias grandiosos, mas sobretudo nos dias em que nada acontece e, ainda assim, continuamos.
O relógio não se atrasou.
Eu também não.
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