O peso manso da chuva
Sexta-feira, 24 de Setembro de 1976
Hoje o dia foi comum. Tão comum que quase se dissolvia na memória antes de acontecer. Se não fosse a chuva, persistente e miúda, seria apenas uma cópia baça de tantos outros dias sem história.
A manhã escorreu devagar. Os minutos misturaram-se com as horas como tinta diluída em água. Entre a organização do grupo que criámos ontem e as tarefas do voluntariado, fui ocupando as mãos para não deixar a cabeça livre. As decisões iam e vinham, combinavam-se, desfaziam-se, tornavam a nascer. Nada de grandioso, mas tudo necessário. Há dias assim: constrói-se pouco por fora e sustenta-se muito por dentro.
À tarde, o Manel juntou-se a mim. A sua presença tem essa virtude simples: não acrescenta barulho, acrescenta equilíbrio. Trabalhámos lado a lado, quase como dois operários de uma fábrica invisível. Falámos de coisas práticas, concretas, palpáveis. O que fazer, como fazer, quem fica responsável por isto ou por aquilo. E, curiosamente, ao falar do que é físico, do que se toca, libertámo-nos do que não se toca. As coisas do coração ficaram suspensas no ar, como se a chuva as tivesse lavado para longe — ainda que por pouco tempo.
Já nem a ida para a Academia me leva o entusiasmo antigo. Não é desinteresse. É outra coisa. Talvez cansaço da alma que o corpo ainda não acompanha. Ainda assim, o treino salva-me. O suor é honesto. As técnicas exigem atenção inteira. Ali não há espaço para fantasmas. Cada movimento pede presença absoluta, e nessa disciplina encontro um bem-estar que não se explica, apenas se sente. O cansaço é um amigo leal: não julga, não questiona, apenas adormece os excessos da mente.
Mas a noite… a noite nunca falha.
Traz o silêncio como quem fecha uma porta devagar. A casa recolhe-se. Os ruídos diminuem. E então regressam os pensamentos, um a um, como visitantes que sabem o caminho de cor. Pergunto-me, com uma franqueza que às vezes me surpreende, se quero mesmo libertar-me deles. Porque há dores que magoam, sim — mas também provam que estamos vivos.
Talvez eu ainda não queira a paz completa. Talvez precise deste tumulto íntimo para continuar a escrever, a treinar, a organizar grupos, a fingir que tudo é apenas rotina.
A chuva caiu o dia inteiro.
E, no entanto, o que realmente molhou foi o silêncio da noite.
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