Tempestade por Dentro, Vento por Fora
Quinta-feira, 23 de Setembro de 1976
O dia começou com um temporal lá fora, como se o céu quisesse competir com a tormenta nocturna que me atravessara a cabeça. Trouxe para a manhã muitos assuntos por resolver, decisões adiadas, palavras que ainda não encontraram coragem. Só perto do fim da manhã consegui sair de casa para ir para o Centro.
Ao passar por casa do Manel encontrei-o meio combalido. O encontro da véspera com a Ana Maria deixara marcas visíveis. Ficou combinado que à tarde me contaria o que haviam conversado.
No CRM, eu e um grupo de colegas decidimos criar um grupo — uma espécie de clube de debate e coleccionismo de fenómenos insólitos. A ideia surgiu entre papéis e conversas soltas e acabou por ganhar corpo. Definimos o espaço que iríamos ocupar, falámos dos móveis necessários, imaginámos prateleiras cheias de recortes, relatos estranhos, mistérios por catalogar. Talvez todos precisássemos de nos ocupar com enigmas distantes para não encarar os nossos.
Regressei a casa com essa pequena chama de entusiasmo, discreta mas real.
De tarde o Manel veio ter comigo. Trazia ainda as olheiras da manhã. Não dormira. Contou-me que, no encontro da véspera, tentara convencer a Ana Maria de que poderiam manter uma amizade sem segundas intenções. Pediu-lhe que esquecesse o pedido de namoro que lhe fizera. Ela manteve-se firme na sua posição. A presença da irmã, disse ele, parecera condicionar-lhe as respostas.
Fiquei a pensar se a Dila seria assim tão rígida ao ponto de influenciar a irmã a manter o não. Não lhe perguntei se o meu nome fora mencionado, se houvera qualquer alusão ao que se passara entre mim e ela. O Manel estava demasiado perturbado para ser interrogado. Há silêncios que são uma forma de respeito.
Procurei ser firme com ele. Disse-lhe que teria de seguir em frente, que era muito novo para compromissos que lhe pesassem assim. Doeu-me dizer-lho. Soava a discurso ensaiado, não a verdade vivida. Acrescentei, num tom que não admitia réplica, que tinha de me prometer que não voltaria a tomar comprimidos para resolver problemas amorosos. Se precisasse de desabafar, que viesse falar comigo. Contudo, enquanto o aconselhava, não me revi nos conselhos que dava. Não lhe podia confessar que, mesmo passado tanto tempo, ainda doía.
Ao fim da tarde ele foi-se embora. Fiquei entregue à minha enclausura involuntária, com um nó na garganta. Lá fora o vento já amainara. Cá dentro, não.
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