Entre a Coragem dos Outros e a Minha Fraqueza
Quarta-feira, 22 de Setembro de 1976
De manhã levantei-me, tomei o pequeno-almoço e fui a casa do Manel. Encontrei-o doente, abatido, com um ar que não enganava ninguém. Disse-me que tomara três comprimidos diferentes. A frase caiu-me mal, onde é que tinha a cabeça? O que é que queria fazer? Pediu-me então um favor: que fosse ter com a Ana Maria, á escola dela. Já passara mais de meia hora e, sem grande margem para cumprir o recado, segui para o Centro.
Ao meio-dia voltei a casa dele e contei-lhe que de manhã já não tinha tido tempo de encontrar a Ana Maria. Depois vim almoçar. A comida soube a pouco, ou talvez fosse eu que estivesse noutra parte qualquer.
Depois das duas, o Manel apareceu em minha casa. Pediu-me que esperasse com ele a Ana Maria. A espera. Que arte ingrata essa, a de ficar à porta a ver o tempo a esticar-se como borracha, inventando hipóteses para preencher o silêncio. Quando finalmente decidimos ir ao encontro da Ana Maria, não andáramos cem metros quando demos com ela. Faltaram as forças ao Manel para falar. Limitou-se a um “olá” breve, quase envergonhado. Seguimos caminho para o CRM, trocando planos que eram castelos de cartas, tentando convencer-nos de que tínhamos algum controlo sobre a vida.
Mas foi perto das sete que o mundo parou.
Vimos a Ana Maria ao longe e, a seu lado, vinha a Dila. O meu coração não bateu; ele caiu, pesado, num abismo que eu julgava ter tapado. Ali estava ela, com esse seu ar impassível, essa máscara de serenidade que sempre usou tão bem para esconder o que lhe ia na alma — ou talvez apenas para obedecer ao rigor que lhe impunham em casa.
Enquanto o Manuel ganhava coragem para falar com a Ana Maria, eu sentia-me um intruso no meu próprio corpo. Segui-os a curta distância e vi-a olhar para trás. Uma, duas, várias vezes. Cada vez que os seus olhos procuravam algo — estariam eles à minha procura? — a chama que eu tentava apagar subia-me à garganta, sufocando-me.
Antes daquele encontro, a minha intenção era dar ânimo ao Manel, impedir que se afundasse de desânimo, mas regressei com um peso que me verga os ombros. Bastou vê-la, sentir o seu rasto no ar fresco da tarde, para perceber que o amor que sinto por ela não aceita ordens de despejo. É um inquilino teimoso que se instalou no centro do meu ser.
O dia bastou-me. Entre o campo de batalha das minhas emoções e o silêncio do meu quarto, ficou a certeza absoluta: enquanto eu respirar, procurarei o seu rosto. Há decisões que não se tomam por vontade; impõem-se-nos como o destino.
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