Caminhos que Curam Uns e Ferem Outros
Terça-feira, 21 de Setembro de 1976
A noite mal dormida não foi apenas cansaço — foi memória a fazer turnos extra. Há dias assim: acordamos já gastos, como se tivéssemos corrido maratonas dentro da cabeça. O desespero do Manel abriu portas que eu tinha fechado com cuidado. E portas antigas não rangem — gritam.
Fui buscá-lo a casa. Fiz o que um amigo faz: tirá-lo do cenário da dor. Levei-o até ao Porto, como quem muda de palco na esperança de que a peça se transforme noutra coisa. Andamos sem destino, que às vezes é o melhor destino possível. E fomos dar às portas do liceu — esse lugar onde a vida parecia sempre maior do que nós.
A estratégia resultou para ele. Afastado das ruas que partilhara com a Ana Maria, o Manel respirou melhor. O ar da cidade, misturado com passos novos, foi-lhe limpando o olhar. Mas eu, caí na minha própria armadilha. Ao salvar o meu amigo dos fantasmas dele, fui acordar os meus.
Pisei ruas que tinham o eco da Dila. E a memória não caminha — corre. Veio em catadupa, sem pedir licença. O coração apertou-se-me no peito como um punho fechado. Tentei disfarçar, mas o Manel percebeu. Quando dois amigos caminham lado a lado, aprendem a ouvir até o silêncio do outro.
A viagem de regresso foi pior. Há caminhos que, quando feitos sozinho, doem mais do que quando foram feitos acompanhados. Cada paragem, cada esquina, tinha uma sombra antiga. Não era o Porto que te feria — era o que lá tinhas sido.
À tarde, escolhi o recolhimento. Inventei uma desculpa e fechei-me no quarto. Às vezes é preciso. Não para fugir — mas para sobreviver ao ruído interior. Só que nem a música aos berros conseguiu calar o tumulto. Há emoções que não respeitam volume.
Esperei pela noite como quem espera por um apagão misericordioso. A escuridão não resolve nada, mas disfarça. Põe uma cortina entre nós e o que nos persegue. É um descanso provisório — mas, naquela hora, era o que tinha.
Houve uma ironia silenciosa neste dia. Fui forte para o Manel. Fui colo, estrada, distracção, companhia. E quando chegou a minha vez de precisar de amparo, fechei-me sozinho. Tenho esse hábito antigo de proteger os outros e poupar o mundo às minhas próprias fragilidades.
Tenho de aceitar que aquilo que senti não foi fraqueza. É uma prova de que amei a sério. E o amor, quando não tem onde pousar, transforma-se em memória insistente.
O curioso é que estas recaídas doem… mas também mostram que ainda estou vivo por dentro. Um coração que não reage é que seria preocupante.
Amanhã o ruído será menor. Não desaparece — mas aprende-se a conviver com ele. E um dia, sem dar conta, passarei por essas mesmas ruas e já não haverá punhos fechados no peito. Haverá apenas uma história minha.
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