Quando o amor aprende a cair

Segunda-feira, 20 de Setembro de 1976

Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e fui a casa do Manuel. Dali seguimos para o Centro. A manhã foi quase mecânica: sentei-me à máquina de escrever e deixei que os dedos fizessem o seu trabalho. O som das teclas tem qualquer coisa de hipnótico — como se cada palavra fosse um passo numa estrada que não sabemos onde termina. Só perto da uma saímos.

À tarde, depois de almoçar, voltei a casa dele e seguimos novamente para o Centro. Mas antes acompanhei-o ao lugar onde ia esperar pela Ana Maria. Ficámos ali perto de meia hora. Cada minuto tinha o peso de um pressentimento. Ela não apareceu.

Fomos então para o Centro. Escrevi mais à máquina, atendi algumas pessoas, coloquei uma fechadura numa porta que insistia em não fechar bem — ironias discretas do dia. Há portas que se arranjam com chave e parafuso; outras não.

Perto das seis, o Manuel deixou-me. Ia ter com ela. Sabia ao que ia. Depois da nossa conversa de ontem, decidiu declarar-se formalmente, apesar de já ter recebido dela uma indicação clara de que a resposta seria igual à da irmã. Ainda assim, precisava de tentar. Há gestos que fazemos não porque esperamos vitória, mas porque precisamos de verdade.

Quando voltou, vinha abatido, quase sem cor. A resposta foi negativa, como era de prever. Pediu-a em namoro. Ela recusou.

Fechei-o no gabinete. Ele sentou-se e chorou. Não disse nada. Não há palavras que substituam esse momento. O choro é uma limpeza que ninguém deve interromper. Deixei-o esvaziar-se.

Mais tarde, quando regressávamos a casa, contou-me tudo. Cada frase, cada hesitação dela, cada esperança que ele alimentara mesmo sabendo o desfecho. Despejou o que sentia com uma franqueza que só a dor permite. Sabia que a resposta seria não — mas precisava de ouvir o não para poder seguir.

Foi um mau dia para ele. E, enquanto o escutava, revivi o meu próprio episódio, não muito distante no tempo. A mesma expectativa, o mesmo embate contra um muro invisível chamado idade, religião, circunstâncias — ou talvez apenas vontade.

Voltámos ao fim do dia. Despedimo-nos sem grandes palavras. Cada um seguiu para casa enrolado nos seus pensamentos, como quem leva ao colo uma coisa frágil que ainda dói tocar.

O amor, quando é jovem, não sabe proteger-se. Atira-se. Cai. E aprende.

Hoje foi dia de queda. Amanhã, talvez, seja de levantar.


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