No alto onde o coração se confessa

Domingo, 19 de Setembro de 1976

Levantei-me cedo. O tempo estava claro, quase impaciente, como se me chamasse pelo nome. Havia dias em que a cama pesa; hoje não. Hoje o mundo parecia dizer: sai.

O Manel apareceu no momento exacto, como se tivesse escutado o mesmo apelo. Saímos sem destino, sem plano, deixando que os passos decidissem por nós. Caminhámos assim, entregues ao acaso, até que demos por nós no Alto do Depósito. Parámos. Olhámo-nos. Sorrimos.

Não era preciso explicar. Estávamos a pensar no mesmo — não na mesma pessoa, mas no mesmo sangue. As irmãs que nos ocupam os pensamentos: a Dila e a Ana Maria. Dois nomes que carregam peso suficiente para alterar o rumo de uma tarde.

Falámos do que fomos quando estivemos juntos delas. Das brincadeiras, das palavras ditas a meio, dos risos que ficaram suspensos no ar. E também das oportunidades que deixámos escapar. Hoje podíamos estar noutra posição, menos incerta, menos vazia. Mas a timidez tem sido o nosso maior inimigo. O medo de dar um passo transforma qualquer sentimento num exercício de contemplação.

Elas usaram os mesmos argumentos para nos manter à distância — a idade e a religião. Como se repetissem uma lição bem decorada. Ou talvez fosse apenas o reflexo de um regime familiar apertado, onde tudo tem regras e horários. Não entendemos. Somos jovens, sim — mas desde quando a juventude impede a amizade? Quanto à religião, nem a mim nem ao Manel nos diz grande coisa. Se fosse preciso assistir às reuniões das Testemunhas de Jeová para encurtar a distância, não seria isso que nos travaria. O que nos trava é outra coisa: a hesitação delas… e a nossa.

Ficámos ali muito tempo, a dissecar razões que talvez nem existam. No fundo, o que queríamos era simples: que aparecessem. Nem que fosse de passagem. Um aceno bastaria. Para nós teria sido o céu.

O tempo correu sem pedir licença. Só quando a fome apertou é que percebemos que não tínhamos almoçado. Rimo-nos dessa negligência como quem ri da própria obsessão. Fomos para minha casa — os pais do Manel tinham saído e ele estava sozinho. Melhor assim.

Passámos o resto do dia a ouvir música e a ver televisão, mas, na verdade, o que fazíamos era companhia um ao outro. Sem grandes discursos, sem necessidade de preencher silêncios.

Hoje experimentei uma sensação que julgava perdida: não me senti sozinho.

E isso, mais do que qualquer resposta das irmãs, foi o que verdadeiramente me alimentou.


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