Entre fantoches e fios invisíveis
Sábado, 18 de Setembro de 1976
Acordei cedo, pequeno-almoço simples, e segui para o escritório. O Manuel já me esperava. Há qualquer coisa de reconfortante em saber que alguém nos antecede e nos aguarda — é sinal de que pertencemos a um lugar, ainda que provisório.
Entrámos e, com outros colegas, passámos a manhã inteira mergulhados na construção de um cenário para teatro de fantoches. Martelos, tábuas, tintas, pano esticado. Trabalhámos até depois do meio-dia. Entre pregos tortos e ideias improvisadas, fui pensando como é curioso prepararmos mundos de cartão onde bonecos irão fingir ser gente. Às vezes suspeito que o contrário também acontece.
Antes de sair ainda houve tempo para uma partida de ping-pong. A bola já não me parece estranha. Começo a antecipar-lhe o salto, a calcular o ângulo. Pequenas vitórias. Nada de grandioso, mas constantes.
Almocei em casa e, pouco depois, voltei ao Centro com o Manuel. O Centro transformou-se então numa máquina em movimento. Papéis, pedidos, decisões, pequenas urgências que não admitem espera. Passei a tarde inteira ocupado, quase sem levantar a cabeça.
Quando saí eram sete e meia. O cansaço vinha limpo, sem drama. Um cansaço que se aceita porque foi ganho.
Hoje dei por mim a pensar que passo os dias a montar cenários — para fantoches, para reuniões, para relações. Fios aqui, estruturas ali. E no meio disso vou tentando não ser eu próprio um boneco puxado por vontades alheias.
Mas, por agora, cumpro o meu papel. E cumpro-o de pé.
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