Uvas maduras e silêncios verdes

Sexta-feira, 17 de Setembro de 1976

Hoje a manhã cheirou a mosto e a terra esmagada.

Fui para casa do Manel ajudar nas vindimas. “Ajudar” é uma palavra generosa — a verdade é que passámos boa parte do tempo a brincar como dois miúdos que fingem trabalhar. Cortávamos cachos com solenidade exagerada, disputávamos quem enchia primeiro o balde, e, volta e meia, lá vinha a mãe ou a tia dele com um ralhete certeiro: menos conversa, mais trabalho. Tinham razão. Mas a verdade é que aquela leveza soube-nos bem. Depois de dias de ruídos e mal-entendidos, estávamos ali, lado a lado, a rir-nos de coisas simples.

Há amizades que se reconstroem melhor entre gestos do que entre discursos. Entre um cacho e outro, ficou selada a paz que na véspera se tinha explicado em palavras.

De tarde regressámos ao CRM. Desta vez os papéis trocaram-se: eu, que ali já me movo com alguma segurança, ensinei o Manel como se fosse um mestre-escola no primeiro dia de aulas do aluno aplicado. Mostrei-lhe o arquivo, a máquina de escrever, os pequenos truques que ninguém ensina mas que fazem diferença. Dei por mim a falar com uma autoridade que não sabia que possuía. Talvez a responsabilidade tenha este efeito: obriga-nos a crescer sem aviso.

Ao fim da tarde voltei a casa apenas para sair de novo. Dia de Karaté. Fui até à paragem para apanhar o trólei. Lá estava o Benjamim. Fizemos a viagem juntos, mas não misturados. A proximidade física não resolveu a distância que se instalou. Há silêncios que são mais honestos do que conversas forçadas.

Quando cheguei à Academia surgiram a Aida e a irmã. Mantiveram-se à parte. Eu também. Não havia nada a dizer — pelo menos da minha parte. Quando as palavras não acrescentam, o melhor é deixá-las quietas. Nem todos os reencontros merecem discurso.

Entre uvas esmagadas de manhã e silêncios amadurecidos ao fim do dia, ficou-me a sensação de que crescer é isto: aprender que nem tudo se resolve, mas quase tudo se acomoda.

E amanhã será outro dia. As vinhas não esperam, as amizades também não.


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