Depois da tempestade, a voz que regressa
Quinta-feira, 16 de Setembro de 1976
O alvoroço de ontem parece ter sido engolido pela noite. Quando cheguei ao CRM, tudo estava sereno, quase indiferente, como se o assalto tivesse sido apenas um boato mal contado. As paredes mantinham-se de pé, as mesas no lugar, e a rotina — essa força invisível — já tinha retomado o comando.
Aprendi a jogar ping-pong com um colega que chegou depois de mim. Nunca tinha pegado numa raquete, mas lá fui tentando, desajeitado no princípio, mais seguro depois. A bola saltava de um lado para o outro como se quisesse ensinar-me qualquer coisa sobre ritmo e paciência. Ri-me. Mais uma aprendizagem a juntar ao meu currículo improvisado desde que entrei para o Centro. Entre arquivos, relatórios, atendimento ao público e agora ténis de mesa, começo a suspeitar que estou a fazer uma aprendizagem paralela na vida prática.
Ao fim da manhã, no regresso a casa, passei por casa do Manel. Estava à porta, imóvel, como quem ensaia uma decisão. Percebi logo que me esperava. Disse que queria falar comigo. Não me surpreendeu. Certas conversas adivinham-se antes de acontecerem. Respondi-lhe apenas que fosse ter comigo ao CRM.
Almocei e voltei ao Centro. Mergulhei na papelada para sábado: preparar documentos, alinhar dossiers, bater à máquina o que fosse necessário. A cave com o arquivo já me começa a parecer um segundo quarto. Entre o teclar da máquina e o cheiro a papel guardado, não houve espaço para pensamentos dispersos.
O Manel apareceu.
Disse o que eu já sabia antes de ele abrir a boca: pediu desculpa por se ter afastado. Confessou que fora influenciado pelo Benjamim. Não senti surpresa, apenas confirmação. Há influências que se notam à distância. Escutei-o até ao fim e disse-lhe que não havia nada a perdoar. Somos amigos há anos. Não é um desvio no caminho que apaga a estrada inteira.
Foi boa esta reaproximação. Senti-a limpa, sem dramatismos. À noite regressámos juntos a casa e, depois do jantar, ele voltou para sairmos — como já não fazíamos há muito tempo. Caminhámos sem pressa. A conversa foi inteira sentimental, como se tivéssemos aberto uma gaveta que estava fechada há meses.
Falou-me das suas hesitações com a irmã da Dila. Eu falei-lhe da Dila — sempre ela, presença constante mesmo quando ausente. Dissecámos olhares, palavras mal ditas, silêncios exagerados. Dois peritos em amores complicados que mal sabem dar um passo em frente, mas sabem analisar cada suspiro como se fosse matéria importante para o futuro.
Quando nos despedimos já passava das dez. Voltei para casa com a sensação rara de que algumas coisas, apesar de tudo, se recompõem. A amizade, quando é verdadeira, não se quebra — apenas se afasta para testar a distância.
E hoje, curiosamente, não precisei de grandes acontecimentos para sentir que o dia teve peso. Às vezes basta alguém voltar.
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