O rumor das pequenas coisas

Quarta-feira, 15 de Setembro de 1976

Há dias em que duvido da utilidade destas páginas. Pergunto-me para quê insistir em registar o que parece não merecer registo. Mas talvez seja precisamente isso que importa: escrever mesmo quando nada arde. A disciplina da escrita é uma forma de resistência — não contra o mundo, mas contra o silêncio interior.

Hoje seria igual aos outros, uma repetição sem brilho, não fora o sobressalto da tarde.

A manhã decorreu sem história digna de memória. Fui ao barbeiro, o que fica mesmo abaixo de casa. Aquela barbearia é mais do que um lugar de cortar cabelo; é um parlamento improvisado de reformados. Falam de futebol como se decidissem o destino do país, contam anedotas que já ouviram dez vezes e descarregam indignações contra os “fascistas da terra”, com uma convicção que não muda o mundo mas aquece a conversa. Esperei hora e meia. Saí de lá mais leve na cabeça e mais pesado nos ouvidos.

De tarde voltei ao CRM, como de costume. Mas mal me aproximei percebi que algo não estava certo. Um magote de gente à porta, vozes sobrepostas, gestos largos. Um assalto.

A palavra correu de boca em boca com a excitação própria de quem precisa de um acontecimento para quebrar a rotina. Contaram que os assaltantes escalaram a parede pela escada fixa, entraram pela clarabóia da farmácia e dali penetraram no Centro. Arrancaram das paredes bandeiras das comissões de moradores, rebuscaram a secretaria, despejaram cola sobre papéis. Antes de sair, levaram dois jogos de damas, dois de xadrez e uma garrafa de aguardente.

Um golpe audaz: dois tabuleiros, dois reis, e uma sede saciada. Se não fosse real, seria quase cómico.

Apareceu a Polícia Judiciária, recolheu impressões digitais, tomou notas e partiu. Ficou o rumor. Uns diziam que foram os reaccionários. Outros culpavam a canalhada que vagueia sem destino. E rapidamente o assunto descambou para propostas de justiça popular, com um brilho estranho nos olhos de alguns. Aí afastei-me. O entusiasmo pela vingança nunca me seduziu. Quando a multidão começa a querer corrigir o mundo à força, prefiro ir para casa.

Fiquei ainda algum tempo a ouvir teorias, mas já não escutava verdadeiramente. O assalto parecia-me pequeno demais para tanto alvoroço e grande demais para ser apenas uma brincadeira. No fundo, não levaram quase nada — mas mexeram naquilo que simbolizava esforço colectivo. Talvez tenha sido isso que feriu.

À noite, em casa, a história repetiu-se à mesa, misturada com relatos de outros tempos e outros excessos. Cada um acrescentava um detalhe, como se bordasse o mesmo pano com linhas diferentes. Eu limitei-me a ouvir.

Mais tarde recolhi-me ao quarto. Fechei a porta, como quem fecha uma janela para que o vento não entre. Decidi que este episódio, apesar de tanto falado, para mim não tinha história. Ou talvez tivesse apenas esta: a confirmação de que o mundo gosta de fazer barulho mesmo quando o essencial continua intacto.

E eu continuo a escrever. Mesmo quando nada acontece. Talvez seja isso que acontece.


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