O dia que passou por mim sem deixar rasto
Terça-feira, 14 de Setembro de 1976
Há dias em que a escrita é um rio. Hoje é um poço.
Ando meio atordoado. Não é cansaço do corpo — esse passa-se com uma noite bem dormida ou com um treino mais duro. É outra coisa. Uma apatia que me tolda os pensamentos, como se alguém tivesse pousado um vidro fosco entre mim e o mundo. Ao mesmo tempo há em mim uma inquietação, uma vontade de mexer, de sair do lugar onde estou — mas não sei para onde ir. É um paradoxo irritante: não consigo ficar quieto, mas também não consigo avançar.
Ontem experimentei escrever de forma mais rotineira. Falei do dia, dos pequenos gestos, das coisas que sempre estiveram lá mas que eu nunca deixei entrar na escrita. Pensei que talvez aí estivesse um novo caminho. Mas não. Soou-me a relatório. Um inventário seco. Não é para isso que escrevo. Ou pelo menos não era.
E aqui está o nó: perdi o foco. O propósito. Aquilo — aquela — que me empurrava para o papel saiu do meu universo, e com ela saiu também o centro de gravidade da minha escrita. Quando o eixo se desloca, tudo gira em falso. Escrevo, mas não vibra. Leio, mas não mergulho. Ouço música, mas ela não me salva. É como se alguém tivesse desligado a corrente principal e eu andasse a tactear interruptores inúteis.
Sinto-me perdido. E o mais inquietante é reconhecer isso com lucidez.
O que posso dizer sobre o dia de hoje? Começou. Acabou. Não o senti. As horas sucederam-se como carruagens de um comboio que passa vistas da plataforma — passam, fazem ruído, mas não nos levam a lado nenhum. Estive presente fisicamente, mas por dentro estava ausente. Um figurante na própria vida.
Talvez isto seja crescimento. Talvez seja apenas vazio. Às vezes confundem-se.
Se a escrita não me obedece, terei de a enfrentar. Se o propósito fugiu, terei de o reconstruir. Não posso depender eternamente de um rosto para existir no papel. Isso seria cómodo — e perigoso. A verdade dói, mas é simples: ou encontro dentro de mim uma razão para escrever, ou a tinta seca.
Hoje não tenho respostas brilhantes. Tenho apenas esta constatação nua: algo mudou, e eu ainda não aprendi a viver com essa mudança.
Mas sei uma coisa — e agarro-me a ela como quem agarra um corrimão na descida —: mesmo nos dias em que nada se sente, há qualquer coisa a ser construída em silêncio. Talvez seja carácter. Talvez seja resistência. Talvez seja apenas a lenta preparação para um regresso que ainda não sei nomear.
O dia passou por mim sem deixar rasto.
Mas eu escrevi. E isso, por agora, basta.
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