Arquitecto de pequenas vidas
Segunda-feira, 13 de Setembro de 1976
Hoje foi um dia combinado de uma capa profissional e outra de quotidiano caseiro.
A manhã foi simples, quase burocrática. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e fui para o escritório. Papéis, silêncio, rotina. Nada que fizesse o coração acelerar. Mais tarde vim embora, como quem fecha uma porta sem dramatismo.
Em casa, almocei e troquei de papel. De funcionário passei a construtor. Havia uma ideia na cabeça e madeira nas mãos. Comecei a erguer a casa das minhas futuras cobaias — pequenas criaturas que ainda não existem, mas que já têm morada marcada. Não é curioso? Há quem construa casas para sonhos; eu construo para roedores. Cada um com as suas grandezas.
Idealizei dois andares, uma divisão em cada, ligados por corredores. Não quis que fosse apenas uma caixa. Quis espaço. Quis circulação. Talvez esteja a projectar neles o que às vezes me falta: caminhos internos bem definidos.
A meio da tarde o primeiro andar já se erguia, firme. No fim da tarde, concluí o segundo. Faltam ainda as chapas para proteger a pequena construção da chuva, do vento e do frio — porque até as cobaias merecem abrigo digno. No fundo, construir é isso: antecipar as intempéries.
Quando terminei, reguei o quintal. A terra respondeu com aquele cheiro húmido que não mente. Há algo de profundamente honesto em cuidar do que cresce devagar.
À noite, jantei, vi televisão, e depois sentei-me a conversar com as minhas irmãs. Conversas simples, de casa, de família. Sem grandes revelações. Mas há um conforto especial nesses momentos — como se a vida, por instantes, deixasse de ser projecto e passasse a ser presença.
É estranho como, entre papéis no escritório e tábuas no quintal, se vai desenhando uma espécie de identidade. Não grandiosa. Não heróica. Mas sólida.
E amanhã, quem sabe, talvez as chapas fiquem colocadas. Afinal, até os arquitectos de pequenas vidas precisam de concluir as suas obras.
Hoje não houve grandes acontecimentos. No entanto decidi transformar a escrita vocacionada para a reflexão e pensamento, para uma escrita virada para a realidade física dos pormenores diários que não tenho registado. Hoje quis uma escrita diferente.
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