O dia em que o mundo ficou à porta

Domingo, 12 de Setembro de 1976

Depois da azáfama dos dias anteriores, este nasceu sem exigências. Não me pediu nada. E eu, pela primeira vez em muito tempo, também não pedi nada a ele.

Afastei-me do mundo como quem fecha uma janela para não ouvir o ruído da rua. Não foi fuga. Foi necessidade. Descomprimi. Desliguei os pensamentos antes que eles começassem a organizar-se em preocupações. Suspendi as emoções como se as colocasse num cabide, à espera de outro dia mais dramático.

Li. Li como quem respira fundo. Cada página era um território onde ninguém me conhecia, onde eu não tinha de explicar nada. A música fez o resto — não como fundo, mas como abrigo. Há canções que não pedem resposta; apenas ocupam o silêncio e tornam-no habitável.

Esqueci os amigos. Não por desamor, mas por descanso. Esqueci os laços, que às vezes apertam mesmo quando são feitos de afecto. Esqueci as paixões — essas então gostam de se impor como tempestades de verão. Hoje não houve tempestades. Só céu limpo.

Fui livre. Não no sentido grandioso da palavra, mas numa liberdade pequena e concreta: a de não ter de corresponder a ninguém. A de não ser esperado. A de não esperar.

Há quem confunda isto com solidão. Não é. Solidão dói. Isto foi silêncio escolhido. E o silêncio, quando escolhido, cura.

Talvez amanhã o mundo volte a bater à porta. Ele é persistente. Mas hoje ficou lá fora.

E eu, por um dia inteiro, fui apenas eu.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »