Entre os arrabaldes da mina e o peso do dever
Sábado, 11 de Setembro de 1976
A manhã começou limpa, quase inocente. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço sem pressa e segui para o Centro como quem vai cumprir um hábito que já se colou à pele. Não esperava sobressaltos. A vida, quando parece mansa, gosta de pregar partidas.
Um grupo de excursionistas caiu-me em cima como uma frente fria. Sozinho. Sem aviso. Sem rede. Durante uns segundos senti o vazio — aquele instante em que o coração pergunta: “E agora?”. E agora, respondi eu, faz-se.
Assumi o papel de cicerone. Mostrei o Centro, falei da história, das lutas, das cicatrizes deixadas no corpo dos homens e na paisagem. Uma hora depois chegaram dois camaradas e dividimos a multidão em três grupos. A terra não se explica a muitos de uma só vez — precisa de ser dita em voz mais baixa.
Rapidamente percebi que precisava de reforço e fui buscar um ex-mineiro, homem de rosto cavado e memória intacta. Quando ele falava das minas, não era relato — era testemunho. E há uma diferença abissal entre as duas coisas. Durante duas horas conduzimos os grupos pelos arrabaldes da mina, como quem guia visitantes por dentro de um velho coração ainda a bater devagar.
No fim, reuniram-se todos e seguiram para o monte, onde almoçaram ao ar livre. Fiquei com aquela sensação estranha de missão cumprida, misturada com cansaço nos ombros.
À tarde regressei ao Centro. Novo grupo, nova explicação. Voltei a ser guia até que o Mazola chegou. Passei-lhe o testemunho sem drama — cada um ocupa o seu lugar quando chega a hora. Depois disso, foi uma correria: atender pessoas, ouvir histórias, responder a pedidos, subir e descer até ao arquivo como se o dia tivesse decidido testar a minha resistência.
Às sete horas fechei o ciclo e vim para casa.
Há dias que nos empurram para dentro da idade adulta sem pedir licença. Hoje senti isso. Não foi heroísmo, foi responsabilidade. E a responsabilidade pesa — mas também endireita as costas.
Curioso como, há poucos meses, eu media os dias por olhares e ausências. Agora meço-os por tarefas cumpridas e decisões rápidas. A vida não pergunta se estamos prontos. Simplesmente começa.
E nós, ou acompanhamos… ou ficamos para trás.
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