A disciplina dos dias iguais
Sexta-feira, 10 de Setembro de 1976
O dia cumpriu-se como um relógio que já não precisa de corda. A nova rotina semi-profissional instalou-se sem alarido, como se sempre tivesse estado ali à espera que eu crescesse o suficiente para a reconhecer.
De manhã, o CRM recebeu-me com o seu silêncio sério. Documentos alinhados, correspondência por abrir, a biblioteca a pedir ordem. Arquivei papéis como quem tenta pôr a vida em gavetas etiquetadas. E, no meio da burocracia, a poesia. Sempre a poesia. A máquina de escrever batia as letras com a sua cadência metálica — tac, tac, tac — como se marcasse o compasso do que eu ainda não sabia dizer em voz alta. Transcrever versos era um acto estranho: eram palavras de outros, mas passavam pelos meus dedos, e isso dava-lhes qualquer coisa de meu.
A tarde repetiu a manhã, mas mais breve. Havia no ar uma espécie de cansaço bom, o cansaço de quem sente que está a fazer algo com peso, mesmo que ainda não saiba bem para quê. Saí antes do escurecer para a Academia. O corpo ali lembrava-me que não sou feito só de pensamentos. Treinar é simples: ou se está presente, ou se cai. Não há espaço para fantasmas.
Não houve encontros. Nem desencontros. E isso, que noutros tempos teria sido um drama digno de três páginas, hoje foi apenas um facto. Quando não se espera nada, nada acontece — e talvez isso seja uma forma discreta de paz. Ou de resignação. Ainda não decidi.
A noite caiu lânguida. Fiquei a olhar o céu, estrelado e distante, e deixei-me embalar por essa vastidão que não exige explicações. Há qualquer coisa de honesto nas estrelas: brilham sem prometer nada a ninguém.
E eu, ali, entre a lembrança do ruído da máquina de escrever e o silêncio do firmamento, comecei a perceber que esta rotina — tão igual, tão repetida — está, sem eu dar por isso, a moldar-me. Não com fogos-de-artifício. Com pequenas pancadas diárias, como a máquina de escrever: letra a letra, linha a linha.
No fundo, talvez crescer seja isto. Não um acontecimento. Mas uma soma de dias aparentemente iguais.
E amanhã? Amanhã será outro dia igual. E ainda bem.
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