Quando a palavra pede passagem
Quinta-feira, 9 de Setembro de 1976
Hoje o trabalho ocupou-me as mãos — e a inspiração ocupou-me o resto. Cumpri as tarefas no Centro com o zelo habitual. Papéis, organização, pequenas decisões. Tudo no seu lugar. Mas havia qualquer coisa a latejar por dentro desde ontem, talvez fruto daqueles poemas que transcrevi.
Quando fiquei livre, arrisquei. Sentei-me diante da máquina e tentei escrever versos meus. Foi um embate curioso: a imaginação queria correr, a rima tropeçava. Nem sempre dançavam ao mesmo ritmo. Houve frases forçadas, rimas ingénuas, metáforas que talvez merecessem ficar na gaveta. Ainda assim, foi uma aventura honesta. Descobri que escrever poesia é olhar para o mundo de lado, como quem espreita por uma fresta e encontra um sentido escondido.
Talvez algo esteja a despertar. Não sei se é talento ou apenas necessidade. Mas há um impulso novo, isso é certo.
Depois do almoço descansei. Porém, mal a tarde se instalou, o bichinho da escrita voltou a inquietar-me. Sem grande cerimónia, regressei aos escritórios do CRM. E ali, no silêncio cúmplice, deixei que a inspiração se espalhasse por folhas dactilografadas, uma após outra. O som das teclas tornou-se quase musical. Se alguém me visse, pensaria que estava a tratar de relatórios importantes. E estava — relatórios da alma.
Ao fim da tarde passei pela biblioteca do Centro e requisitei novos livros. A leitura já não é passatempo; é companhia fiel dos meus tempos mortos — e, às vezes, dos tempos vivos também.
A noite, essa, é território sagrado. Sem distrações, sem olhares, sem interrupções. É quando escrevo o diário, quando leio até que as letras comecem a desfocar. A noite não julga. Apenas escuta.
E eu, por agora, tenho muito para lhe dizer.
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