Entre rimas e fantasias

Quarta-feira, 8 de Setembro de 1976

Mais uma manhã no CRM, mas sem peso nos ombros. O trabalho correu sereno, quase doméstico. Nos intervalos, sentei-me à máquina e passei a limpo poemas de um livro. Foi um exercício curioso: enquanto os dedos batiam nas teclas, comecei a perceber melhor o mecanismo das quadras, o jogo da rima, o equilíbrio entre som e sentido. Há ali uma arquitectura escondida que me fascina.

Os sonetos, esses, pareceram-me mais rígidos, quase solenes demais para o meu gosto — como fatos que exigem postura impecável. Talvez um dia os compreenda melhor. Por agora, fiquei satisfeito por notar que a minha dactilografia já não tropeça tanto. As mãos começam a pensar sozinhas.

À tarde procurei leitura, mas impus uma regra a mim mesmo: nada de romances. Ainda não estou disposto a abrir certas portas. Escolhi Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne. Outra paisagem, outro fôlego. Mistério, imaginação, ciência aventurosa. Uma descida às profundezas da Terra em vez de uma descida às profundezas do coração — escolha prudente.

Li com leveza. Não me detive nos detalhes, não me deixei enredar totalmente pela fantasia. Foi uma leitura limpa, quase higiénica. Serviu para ocupar o espírito sem o perturbar.

A tarde foi esmorecendo devagar, como a luz que se apaga sem drama. E eu com ela, tranquilo. Nem todos os dias precisam de intensidade. Alguns bastam-se com a simples ausência de pensamentos venenosos. E isso, convenhamos, já é vitória suficiente.


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