Disciplina para não ceder

Terça-feira, 7 de Setembro de 1976

Hoje voltei a vestir o fato invisível de homem responsável. No CRM ocupei-me de ficheiros, papéis, pastas que já não tinham razão de existir. Organizar é uma forma de pôr ordem cá dentro — embora ninguém o diga em voz alta. Escrevi uma carta e, em vez de a confiar ao acaso do correio, fui entregá-la por mão própria. Pequeno gesto, talvez. Mas senti orgulho. Não daquele barulhento que pede aplauso. Um orgulho calmo, de quem cumpre.

À tarde, saco ao ombro, kimono lá dentro como promessa de disciplina, segui para o Porto. Fiquei largas horas na biblioteca, esse território onde ninguém nos exige explicações. Ali, entre estantes e silêncio, a vida parece mais clara. Depois fui para a Academia.

Encontrei a Aida. Houve um momento suspenso — e logo se desfez. A sua atitude, leve demais, quase provocatória na imaturidade, cansou-me. Não discuti. Virei costas. Às vezes o gesto mais adulto é simplesmente retirar-se.

Regressei a casa, jantei, e ainda treinei mais um pouco. O corpo a trabalhar é uma forma honesta de não ceder ao tumulto. O cansaço físico tem esta virtude: alivia tensões e desliga o ruído interior.

Há dias assim. Não resolvem tudo. Mas mantêm-nos de pé. E, por agora, isso basta.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »