Entre páginas e presságios
Segunda-feira, 6 de Setembro de 1976
Hoje fechei-me no quarto como quem fecha o mundo do lado de fora. O sol, filtrado pelas cortinas, desenhava sombras indecisas nas paredes — formas sem nome, como os pensamentos que não se deixam agarrar. O rádio murmurava baixinho, cúmplice discreto. E eu, de novo, com A Morgadinha dos Canaviais nas mãos, essa obra de Júlio Dinis que parece escrita com a paciência de quem conhece o coração humano.
Fui sorvendo cada linha. Depressa percebi que aquele romance, plantado no Minho, falava de um amor que não encontra resposta. E aí senti o primeiro sobressalto: reconheci-me. Henrique conhece Madalena e apaixona-se quase sem defesa — primeiro pela figura, depois pela inteligência que destoa naquele cenário serrano. Ele, deslocado. Ela, também. E no entanto, tão distantes.
Henrique choca com os costumes, com as mentalidades, com as pequenas vaidades de aldeia. Há sempre um preço a pagar por não caber no molde. A manhã cresceu, e a história também. Quando percebi que Madalena tinha um admirador secreto — Augusto, o mestre-escola — e que era isso que a afastava de Henrique, senti uma pontada funda. Perguntei-me, sem rodeios: será que me aconteceu o mesmo? Terá a Dila outro olhar a acompanhá-la, outra presença silenciosa que eu não vejo? Às vezes não é rejeição; é apenas prioridade diferente. Dói na mesma.
Li sofregamente, já não apenas como leitor, mas como réu à espera da sentença. E ela veio. Henrique fica com Cristina. Madalena casa com Augusto. A vida recompõe-se — mas não como se desejava. Fechei o livro com um suspiro que tinha mais de ressentimento do que de resignação. Para muitos será um final sereno. Para mim foi trágico.
Curioso como uma história alheia pode expor as nossas próprias feridas com tanta clareza. Hoje não saí do quarto. Mas viajei mais longe do que em qualquer trólei.
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