Viagens que não saem do lugar
Domingo, 5 de Setembro de 1976
O dia nasceu manso, como se soubesse que eu precisava dessa trégua.
De manhã comecei a ler A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Dinis. E fui-me embora dali sem sair da cadeira. Desfolhei páginas como quem atravessa serras. Senti-me Henrique de Souselas, impaciente, arrependido da aventura, a maldizer a decisão de se meter por caminhos ásperos, enquanto o almocreve, fiel e incansável, repetia lá do alto que já não faltava muito. Há sempre alguém optimista ao nosso lado quando estamos decididos a dramatizar.
Vivi aquela jornada até à chegada a Alvapenha, já noite cerrada. Só então fechei o livro. Dei por mim a respirar fundo, como se tivesse feito realmente o trajecto. A descrição era tão viva que quase senti o pó do caminho. É isto que a literatura faz quando é grande: empresta-nos vidas sem nos pedir nada em troca.
À tarde fui ao cinema, talvez para prolongar a fuga. O filme, porém, nada me disse. Há obras que passam por nós como vento morno — não deixam marca, não levantam poeira. Saí da sala como entrei.
No regresso a S. Pedro, no trólei, vieram-me à memória outras viagens. Outras companhias. Houve um tempo em que cada trajecto tinha luz própria, porque alguém seguia ao meu lado e iluminava o caminho com a simples presença. Não era preciso conversa constante; bastava estar. Agora, o banco ao lado parecia maior. A solidão tem esta habilidade estranha de ocupar espaço físico.
A noite caiu sem novidade. Fiz o que tenho aprendido a fazer: disciplinei os pensamentos como quem fecha janelas antes da tempestade. A música no rádio ajudou. Deixei-me embalar até o sono vencer.
Nem todas as viagens exigem movimento. Algumas acontecem por dentro — e essas, às vezes, são as mais difíceis.
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