O labor que afasta as sombras
Sábado, 4 de Setembro de 1976
Hoje o dia não me deu tempo para hesitações — e ainda bem. Passei a manhã ao lado do meu pai, entre ferramentas, tábuas, pequenos arranjos na casa e no quintal. Há uma verdade simples no trabalho manual: obriga-nos a estar presentes. A mão pensa antes da cabeça. O martelo, a enxada, o prego — todos exigem atenção inteira. E enquanto o corpo trabalha, os pensamentos recolhem-se, como se respeitassem aquela disciplina silenciosa.
De tarde, no CRM, a mesma azáfama de sempre. Subir e descer escadas, do escritório à cave e da cave ao escritório, como se o dia fosse uma escada interminável. Chegou mais uma excursão de idosos, trazendo nos olhos uma mistura de esperança e cansaço. Procuram justiça tardia, uma compensação que lhes foi negada quando ainda tinham força para exigir. Agora pedem com voz mais baixa, mas não menos digna.
O trabalho foi intenso. E o cansaço, estranhamente, soube bem. Corpo e mente alinhados, sem folgas por onde se infiltrassem aqueles pensamentos insistentes. Quando assim é, há uma espécie de paz operária que nada tem de poético — mas é sólida.
A tarde correu veloz. Só a chegada da noite nos lembrou que o tempo existe, que não é apenas uma sucessão de tarefas.
E a noite veio como deve vir: para retemperar, para devolver ao corpo o que o dia lhe tirou. Nem todos os combates se travam com palavras. Alguns vencem-se apenas trabalhando.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »