Quando o silêncio fala mais alto
Sexta-feira, 3 de Setembro de 1976
A normalidade ensaia o regresso, como quem bate à porta devagar para não assustar. De manhã li e, novidade das novidades, escrevi pequenos sketchs de humor. Ri-me sozinho de algumas ideias — sinal saudável, creio eu. Sempre fui dado à boa disposição, prefiro a paz à gritaria, o recanto ao palco. Mas há qualquer coisa a mexer por dentro. Talvez uma inclinação mais poética, mais lírica, a querer nascer sem pedir licença. Não sei ainda se é moda passageira ou se é raiz a ganhar força. Veremos.
À tarde voltei ao livro. Ou tentei. Duas páginas — foi tudo o que consegui. Quatro vezes lutei contra o impulso de o fechar, como se a disciplina pudesse vencer o tumulto. Não venceu. A cabeça estava noutro sítio. A perda dos amigos, essa palavra feia chamada solidão, o trabalho no Centro, o regresso iminente ao liceu… e a perspectiva de cruzar corredores com quem escolheu afastar-se. Pensamentos que se repetem como um eco teimoso.
Recomeçaram os treinos. Enfrentei o Benjamim. Ele virou-me a cara. Confirmação silenciosa do que já sabia. Às vezes não é preciso discussão; basta um olhar recusado. Talvez a amizade tenha ficado para trás, algures no Verão. Vi a Aida ao longe. Também desviou o olhar. Isso não me feriu — não havia entre nós nada que pudesse quebrar-se.
A noite caiu e, com ela, um certo alívio. Os ruídos da rua cessaram. E, por sorte, os de dentro também. Há dias em que o silêncio não é vazio — é descanso.
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