Entre a promessa do futuro e o silêncio da tarde

Quinta-feira, 2 de Setembro de 1976

As férias continuam, mas já não têm o sabor indolente de Julho. Agora trazem uma espécie de maturidade discreta, quase profissional. No CRM deixei de ser apenas o rapaz que aparece; começo a ser o que resolve. No escritório recebo pessoas, escuto-as, encaminho pedidos, redijo cartas para os serviços sociais com um cuidado que me surpreende. A máquina de escrever já não me intimida. As palavras alinham-se com mais firmeza.

Acompanho visitantes ao museu mineiro, explico o que sei, respondo dentro dos limites da minha idade — e às vezes até para além deles. Sinto-me mais solto, mais seguro, como se estivesse a ensaiar uma versão futura de mim mesmo. Há dias em que quase me esqueço de que tenho dezasseis anos.

Mas pergunto-me: será isto um ensaio geral para uma vida que ainda não devia começar? Um estágio disfarçado de férias? Espero que não. Ainda quero os livros, as salas de aula, as dúvidas grandes que só os estudos sabem provocar. Trabalhar é digno, sim — mas crescer sem estudar é como construir uma casa sem alicerces. Fica de pé até ao primeiro abalo.

À tarde decidi recuperar o que resta das férias. Li longamente. A leitura é um esconderijo honesto; ninguém nos acusa de fugir quando estamos sentados com um livro aberto. Depois ouvi música, deixei que as notas me limpassem os pensamentos que insistem em ocupar espaço indevido. Há ideias que não são nossas — são ruídos herdados, medos emprestados. E é preciso coragem para os expulsar.

Adormeci um pouco, embalado por essa paz breve que só chega quando deixamos de lutar contra tudo.

Ao fim do dia treinei. O corpo a trabalhar ajuda a cabeça a calar-se. Cada movimento é uma afirmação silenciosa: estou aqui, estou vivo, ainda escolho o meu caminho. Fui para a cama cansado, mas sereno.

Entre o rapaz que atende no escritório e o estudante que quer ir mais longe, sinto que caminho numa corda esticada. Mas talvez seja assim que se aprende o equilíbrio.


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