Entre fantasmas

Quarta-feira, 1 de Setembro de 1976

Voltei ao CRM de manhã. Voltar é a palavra certa — porque não há surpresa, não há desvio, apenas regresso.

Estive sozinho. Sozinho de corpo e de alma. Nem vivalma por perto. Desde que as minas encerraram, aquele pequeno bairro mineiro ficou suspenso no tempo. Casas alinhadas como cenários abandonados, ruas onde o eco dos passos parece exagerado. Aqui e ali, um idoso sentado à porta a apanhar sol, uma idosa a estender roupa com gestos lentos, quase cerimoniais. O resto é silêncio.

Senti-me um deles. Um velho prematuro numa terra de fantasmas. É estranho sentir a juventude a pesar como idade.

De tarde aceitei o convite dos meus pais para ir ao Porto. Pensei que a mudança de cenário pudesse sacudir esta névoa. Enganei-me. Nem na viagem houve descanso. O Mazola — sempre o Mazola — entrou connosco, sentou-se ao lado do meu pai e falou sem pausa sobre o CRM, os projectos, as reuniões, as dificuldades. Há pessoas que ocupam o ar todo do trólei. Ele é uma delas.

Enquanto ele discursava, deixei-me ir para longe. Muito longe. Para outras viagens. Para outra companhia.

Lembrei-me "dela".

Da sua voz meiga. Do sorriso que não precisava de esforço. Do cabelo comprido que me batia na cara quando a janela do trólei ia aberta e o vento entrava sem pedir licença. Lembrei-me de como podia ter sido simples: dar-lhe a mão, aproximar-me, sussurrar-lhe ao ouvido o quanto gostava dela. Não era preciso heroísmo. Bastava verdade.

E falhei.

Falhei com ela e falhei comigo. Na altura pareceu prudência, timidez, talvez medo de parecer ridículo. Hoje chama-se arrependimento. É um nome mais honesto.

Curiosamente, essas memórias foram companhia. A ausência dela tornou-se presença dentro de mim. Às vezes a lembrança é mais fiel do que a realidade.

No Porto caminhei, circulei, talvez tenha levitado — não sei. Segui os passos dos meus pais como quem cumpre um percurso automático. O corpo ia, a cabeça não estava. Quando se anda assim, a cidade torna-se cenário e nós figurantes da nossa própria vida.

A noite chegou e trouxe o único consolo possível: o cansaço. Enterrei as lamentações na almofada, como quem tapa um poço raso. Amanhã voltarão, eu sei. Mas há uma coisa que esta dor ensina, mesmo que doa admitir: já não sou o rapaz indiferente. A consciência de ter falhado é também sinal de que aprendi alguma coisa.

Talvez ainda não saiba o quê. Mas aprendi.

E isso, mesmo que não pareça, é movimento.


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