À procura de um rosto entre a multidão

Segunda-feira, 18 de Outubro de 1976

Hoje foi um dia muito intenso para mim.

Levantei-me muito cedo, mais cedo do que seria necessário. Estava nervoso. A noite não tinha sido boa; o sono veio aos pedaços, inquieto, como se a mente não quisesse desligar. Mesmo assim saí de casa ainda de madrugada, com o coração a bater forte no peito.

Conhecia bem aquela sensação.

Desci a rua enquanto o Sol ainda não tinha nascido, embora já se anunciasse timidamente no cimo da serra da Pia. Virei junto à mercearia do Zé Caseiro, onde tantas vezes a minha mãe faz compras. Caminhava apressado, quase sem sentir o frio da manhã.

Passei pela igreja, mergulhada num silêncio profundo, sem vivalma por perto. Continuei a descer até à paragem em frente ao campo do Jangana, agricultor conhecido por estas bandas de S. Pedro da Cova.

Ali, antes de virar para a rua principal onde se via a paragem do trólei, o meu coração começou a bater desamparado. Já me faltava o ar.

Eu sabia porquê.

Quando cheguei à paragem havia um pequeno grupo de pessoas encolhidas umas contra as outras, tentando escapar ao frio. Olhei com atenção, procurando um rosto que conhecia de memória.

Nada.

Nem uma sombra "dela".

O trólei que tinha passado antes por nós apareceu então na paragem depois de dar a volta na Adega Azul. As portas abriram-se. Eu não entrei. Precisava de respirar, de acalmar o coração. Preferi esperar pelo próximo.

Mas o meu verdadeiro objectivo não era o trólei.

Era vê-la. Ver a Dila. Talvez falar com ela.

Aos poucos a paragem foi ficando vazia e fiquei ali sozinho. Pelo menos foi assim que me senti. Ouvi passos vindos da rua de cima, aquela por onde eu próprio tinha descido momentos antes. Virei-me com esperança.

Nada.

Quer dizer… ninguém que iluminasse o dia.

Mais pessoas chegaram. Outro trólei passou, abriu portas, partiu. E eu mantive-me ali, firme no meu intento, como se a persistência pudesse alterar o destino daquela manhã.

Mas o tempo foi passando. E o meu coração, cansado de esperar, começou a acalmar.

Acabou por me aconselhar a seguir viagem.

Quando o trólei avançou e passou pelo Largo da Covilhã, ainda olhei para a paragem com uma última réstea de esperança. Uma esperança frágil, que se desfez quase no mesmo instante.

Segui então para o Porto, para o Liceu Alexandre Herculano.

O resto da manhã passou como se eu estivesse anestesiado. A vontade de ir para as aulas tinha desaparecido. Sentia-me apenas como um autómato a cumprir uma tarefa.

As aulas, na verdade, não foram bem aulas. Foi apenas a apresentação dos professores. Cada um falou um pouco, explicou regras, anunciou programas. Tudo seguiu o seu ritmo normal.

Mas eu não estava verdadeiramente ali.

Quando saí do liceu fiz algo quase instintivo: desci até ao Liceu Rainha Santa, onde a Dila vai estudar. Não tinha grande esperança, mas fui na mesma.

Entrei no átrio para procurar o seu horário entre os papéis afixados nos painéis. Havia muitos, sobrepostos, confusos. A minha mente não estava presente e, no meio daquela mistura de folhas e nomes, não consegui encontrar nada.

Acabei por desistir.

E fui-me embora.

O resto do dia passou sem que eu desse por ele. Como se as horas tivessem escorrido pelos dedos. Não vi nada com atenção, não reparei em ninguém. Respondi automaticamente às perguntas que me faziam.

E no fim de tudo voltei para o conforto silencioso do meu quarto.

Hoje percebi uma coisa: às vezes um único rosto pode ser capaz de mudar o peso inteiro de um dia. E quando esse rosto não aparece… o mundo parece continuar a andar, mas dentro de nós fica tudo suspenso.


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