O sobressalto do coração

Terça-feira, 19 de Outubro de 1976

Este dia ainda repercute os ecos do dia de ontem.

A noite não foi boa conselheira. Custou-me adormecer. Levei comigo para a cama as palpitações sofridas durante o dia, como quem leva um enxame preso dentro do peito. Hoje o meu coração parece ainda não ter acertado o seu ritmo e, se num momento me sentia calmo, no instante seguinte a ansiedade voltava como uma onda fria. Foi uma prova de fogo por que passei — e, para ser sincero, ainda não passou.

Felizmente as aulas ainda não começaram hoje, o que me deu algum espaço para respirar e tentar sossegar o turbilhão que me envolvia a mente.

Fui ao Porto tratar de tirar o passe. Era uma coisa simples, quase automática, mas talvez por falta de concentração no que estava a fazer, atrasei-me pelo caminho. Quando cheguei aos serviços dos STCP já estavam encerrados. Fiquei aborrecido comigo mesmo — mais do que aborrecido, amuado. Não soube explicar onde tinha a cabeça durante todo o percurso. Andava, mas era como se fosse outro que pensasse por mim.

De tarde o ânimo era o mesmo. Continuava perdido nos meus próprios pensamentos, como quem caminha dentro de um nevoeiro espesso. Decidi então ir ao Centro. Pensei que, ocupando as mãos, talvez a cabeça seguisse o mesmo caminho.

Depois de organizar alguns ficheiros, fui ao Posto Médico entregar umas cartas à assistente social. Ia absorto, quase sem ver o caminho, e por isso nem me apercebi de que estava a passar por casa da Dila.

Despertei de repente.

Parei com um supetão, como se uma mão invisível me tivesse agarrado pelo peito. Virei-me instintivamente — e então vi a mãe da Dila. Estava no pátio da casa. Olhava para mim com um olhar sério, tão sério que me gelou por dentro. Empalideci. Aquela mesma mão invisível que me havia travado pareceu, no instante seguinte, empurrar-me para longe. Afastei-me rapidamente, quase tropeçando nos próprios passos, com a sensação muito nítida de que aqueles olhos frios continuavam cravados nas minhas costas.

Cumpri o serviço que tinha ido fazer e regressei. Desta vez escolhi outro caminho, mais longo, mas seguro — ou pelo menos assim me pareceu.

A sensação de estar a ser observado, e talvez julgado, acompanhou-me até casa. Quando cheguei, refugiei-me ali dentro como quem fecha uma porta contra o vento. Enclausurei-me. Não voltei a sair.

Depois de um dia como o de ontem, hoje não podia ter sido pior.

E o mais inquietante é isto: sinceramente não sei o que pensar. Não sei bem o que estou a sentir. Há momentos em que parece que tenho medo do que o futuro me reserva — como se estivesse à porta de alguma coisa que ainda não consigo ver, mas que já me faz estremecer.


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