A lentidão invisível das horas

Quarta-feira, 20 de Outubro de 1976

Há dias que chegam ao fim como chegaram ao princípio: sem ruído, sem história, quase sem rasto. E quando me sento agora a escrever, pergunto a mim mesmo o que poderá merecer duas linhas neste diário. A resposta é simples e talvez um pouco teimosa: quase nada. Ainda assim escrevo, porque este gesto já faz parte do meu dia como o respirar — não por obrigação, mas por uma espécie de fidelidade silenciosa aos dias que passam.

Se nada de importante aconteceu, talvez os pequenos detalhes mereçam hoje um lugar. Esses pormenores que, de tão leves, passam por nós como uma aragem de Primavera em pleno Outono: fresca, discreta, sem assunto, quase transparente.

Hoje encontrei-me assim, perdido em pensamentos, sentado junto de uma janela no segundo piso do trólei. Lá fora o mundo corria depressa, com a pressa habitual das ruas. As casas, as pessoas, as esquinas iam ficando para trás como imagens folheadas numa revista que alguém abre sem verdadeira curiosidade. Eu olhava, mas na verdade não via.

Não procurava memórias nem chamava recordações. Limitei-me a deixar que o corpo e os sentidos seguissem o compasso do veículo — o parar, o arrancar, o leve estremecer do metal sob os fios. Era como se o caminho se desfolhasse diante de mim página a página, enquanto a minha atenção ficava suspensa algures entre uma linha e outra.

O tempo parecia correr lá fora, mas não dentro de mim. O meu tempo era outro tempo, um tempo desligado daquele que marcava os relógios da cidade. E talvez por isso as horas passaram sem peso, sem marca, quase sem existência.

Quando agora tento lembrar-me do resto do dia, encontro apenas uma espécie de névoa tranquila. Uma réstea de existência sem contornos definidos, como se as horas tivessem caminhado em silêncio e decidido não deixar pegadas na memória.

Há dias assim. Não são grandes dias, nem maus dias. São apenas dias. E talvez, pensando bem, isso já seja suficiente.


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