Carris de silêncio

Quinta-feira, 21 de Outubro de 1976

Voltaram as aulas, voltou a rotina, voltou também aquela solidão discreta que se instala sem pedir licença. A ansiedade que há dias me agitava parece ter passado como passa uma tempestade breve: deixou o ar mais limpo, mas também um certo vazio.

Saí de casa e os meus passos levaram-me, quase sem eu dar conta, até à paragem do trólei. É curioso como o corpo aprende os caminhos antes mesmo de o pensamento acordar. Caminhei entre a multidão que se juntava ali, cada pessoa fechada no seu pequeno mundo. Quando o trólei chegou, o costume: empurrões, braços, ombros, gente a disputar espaço como se aquele transporte fosse o último.

De repente estava lá dentro, engolido pelo ventre metálico do monstro que todos os dias me leva ao liceu.

E não me importei.

Não senti impaciência, nem revolta, nem sequer curiosidade. Apenas segui adiante, levado pelo movimento da massa humana. Às vezes penso que sou apenas mais uma peça numa engrenagem que gira sem perguntar nada a ninguém.

As horas passaram.
As aulas passaram.
As pessoas passaram.

Rostos, vozes, passos — tudo atravessando o meu dia como sombras rápidas. Seres anónimos que entram e saem do meu campo de visão sem deixar marca. No meio deles sinto-me muitas vezes como uma sombra também, uma presença sem peso no meio da multidão.

Na paragem, os meus olhos não procuraram ninguém. Não esperavam nenhum sinal entre aquela turba de gente que se acotovela à pressa. O meu coração também não acelerou nem abrandou. Houve até um momento em que pensei, com um humor seco que quase me fez sorrir, que talvez ele tenha ficado esquecido algures lá atrás, perdido numa esquina qualquer dos dias passados.

Hoje limitei-me a existir.

Existo porque respiro.
Existo porque caminho.
Existo porque sigo.

Como um comboio que não tem de escolher o caminho. Os carris estão ali, firmes, e basta avançar sobre eles. O percurso repete-se todos os dias: o mesmo caminho, as mesmas pessoas, os mesmos gestos. E as repetições são tão exactas que por vezes tenho a sensação estranha de estar a viver o mesmo dia uma e outra vez, como se o tempo fosse apenas um círculo que insiste em voltar ao mesmo ponto.


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