Um banco ao sol e a paz possível
Sexta-feira, 22 de Outubro de 1976
De volta às aulas, o meu dia-a-dia parece querer ajustar-se outra vez aos seus velhos trilhos. De manhã levanto-me sem esforço, como se o corpo tivesse aceite a rotina antes mesmo de eu pensar nela. Saio de casa e encaminho-me para o liceu com naturalidade, sem grandes preocupações nem aqueles devaneios que tantas vezes me acompanharam.
Hoje aconteceram duas ausências no horário: faltaram-me duas aulas. E decidi, sem grande discussão interior, que as paredes do liceu não seriam a melhor companhia para preencher aquele tempo. Também não me apetecia juntar-me aos foliões do costume, sempre prontos para transformar qualquer intervalo num pequeno carnaval.
Saí, portanto, a vaguear pela cidade sem destino certo.
Curiosamente, fui desviando os passos para não passar em frente do Liceu Rainha Santa. Porquê? Não interessa muito explicar. Há perguntas que não pedem resposta; limitam-se a existir. Talvez seja apenas uma forma de seguir em frente, acreditando que a vida continua, quer eu queira quer não.
Acabei por ir parar ao jardim do Campo 24 de Agosto. Sentei-me num banco em frente ao pequeno lago. Alguns gansos grasnavam irritados com a aproximação de dois ou três rapazes que se divertiam a provocá-los. O sol estava generoso e o ar tinha aquela luz limpa dos dias de Outono que ainda não decidiram ser frios.
Fiquei ali algum tempo, simplesmente a observar.
Não pensei em nada de especial. O barulho da água, os passos das pessoas no passeio, o grasnar indignado das aves — tudo aquilo formava uma espécie de música tranquila. E, para ser sincero, fez-me bem. Às vezes basta um banco ao sol para que o espírito respire um pouco mais largo.
Quando as aulas terminaram regressei a casa sem pressa. Sozinho, como quase sempre, e sem ninguém à espera do outro lado da porta. Não é uma queixa, é apenas um facto, dito com a mesma serenidade com que se descreve o tempo.
O CRM continua no meu horizonte. É, ao mesmo tempo, uma fuga e uma ocupação. Um lugar onde a mente encontra alguma tarefa, alguma distração. E, nestes dias em que o silêncio ocupa tanto espaço dentro de mim, qualquer abrigo para o pensamento acaba por ser bem-vindo.
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