O silêncio que fala nos rostos

Sábado, 23 de Outubro de 1976

As aulas e os professores parecem andar a baixa velocidade, como se o tempo tivesse decidido caminhar em passo de passeio. Hoje tive apenas duas aulas, o que me ofereceu um pequeno intervalo de liberdade. Não fiquei pelo liceu. Desta vez saí com destino certo: o Jardim de S. Lázaro, ali mesmo em frente à Biblioteca Municipal.

Pelo caminho encontrei uma ocupação para a mente. Talvez mais do que uma ocupação — uma preocupação. Pensei no grupo que eu criara no CRM. Nos últimos dias ouvi alguns dos “chefões” falar em acabar com ele. Ainda não percebi bem porquê. A ideia anda-me a roer os pensamentos como um rato paciente que não desiste de um pedaço de pão.

Mas quando cheguei ao jardim, as preocupações ficaram para trás, algures no meio da rua por onde tinha vindo.

Sentei-me num banco mais afastado, num lugar discreto de onde podia observar quem passava sem dar muito nas vistas. E devo dizer que aquilo se revelou, para mim, uma experiência inesperadamente instrutiva.

As pessoas iam passando — umas apressadas, outras mais lentas — e em cada rosto comecei a procurar sinais, pequenas expressões que talvez revelassem o que lhes ia no espírito. Foi quase um jogo silencioso que inventei comigo mesmo. Olhava para uma cara e imaginava: preocupação, cansaço, alegria escondida, aborrecimento.

Fiquei tão concentrado nesse exercício que o tempo foi passando sem pedir licença. Quando dei por mim, já se fazia tarde e era melhor regressar a casa.

No caminho de volta reparei que aquele pequeno “bichinho” da observação tinha ficado preso dentro da minha cabeça. Dei por mim várias vezes a olhar atentamente para os passageiros do trólei. Alguns cruzavam o olhar comigo e, confesso, havia nesses encontros algo que parecia uma leve repreensão — como se eu tivesse invadido um território privado apenas por olhar um pouco mais demoradamente.

Talvez fosse apenas imaginação minha.

Seja como for, fiquei intrigado. Há qualquer coisa de fascinante no simples acto de observar as pessoas. Hoje percebi uma coisa curiosa: o silêncio de um rosto pode dizer muito mais do que muitas palavras.

E talvez, se eu aprender a escutar esse silêncio, consiga perceber melhor o que se passa no espírito dos outros… e, quem sabe, também no meu.


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