Palavras que respiram no silêncio
Domingo, 24 de Outubro de 1976
Hoje passei o dia no CRM. Talvez tenha sido, no fundo, uma demonstração clara da solidão em que me encontro. Procuro a companhia de pessoas que pouco me dizem, mas que pelo menos estão ali, presentes. Às vezes basta isso: um rumor humano por perto, mesmo que as palavras não tragam grande significado.
Não foi um dia de grande trabalho, pelo menos daquele para o qual me voluntariei. Ainda assim arranjei forma de me manter ocupado. Levei comigo os resumos das aulas desta semana e sentei-me a passá-los à máquina. O teclar ritmado da máquina de escrever tem qualquer coisa de hipnótico, quase como o bater regular de um coração de ferro. Linha após linha, as palavras iam aparecendo no papel com uma ordem que a minha cabeça nem sempre consegue ter.
Foi bom ocupar-me assim. Enquanto os dedos trabalhavam nas teclas, a mente ficava livre das voltas habituais. Não havia tempo para outros pensamentos, nem para aquelas sombras que às vezes insistem em aparecer quando o silêncio se torna demasiado largo.
Durante a tarde aconteceu outra coisa que me agradou. Peguei num papel qualquer e comecei a escrevinhar alguns poemas meus. Não sei bem de onde vêm essas palavras; aparecem-me como quem encontra pequenas pedras no caminho. Mais tarde sentei-me outra vez à máquina e passei-os a limpo, dactilografando cada verso com um cuidado quase cerimonial.
Começo a perceber que a poesia pode ser para mim uma espécie de refúgio. Uma maneira de pegar nas emoções que guardo cá dentro — às vezes confusas, às vezes pesadas — e colocá-las no papel. Quando isso acontece, elas deixam de ser apenas minhas. Ganham forma, ganham corpo, quase diria que ganham vida.
E talvez seja esse o pequeno milagre da escrita: transformar o que vai dentro de nós em algo que pode respirar fora de nós. Mesmo que ninguém o leia. Mesmo que fique apenas guardado entre as páginas deste diário.
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