Refúgio entre paredes neutras

Segunda-feira, 25 de Outubro de 1976

O CRM está a tornar-se, pouco a pouco, a minha segunda casa. Não no sentido comum da palavra — não há ali laços de sangue nem o calor de uma família — mas há outra coisa talvez igualmente necessária: um lugar onde posso simplesmente existir.

Depois das aulas, os meus passos encaminham-se quase sempre para lá. Já não é uma decisão pensada; tornou-se um hábito tranquilo, como quem procura instintivamente um abrigo quando o vento começa a soprar mais forte.

Ali encontro uma espécie de sala de estudo improvisada. Uma mesa, uma cadeira, algum silêncio à volta. E isso basta. É também o lugar onde vou cultivando, devagar, este estranho prazer da escrita que começa a crescer dentro de mim.

No CRM ninguém me pergunta muito. Ninguém exige explicações que eu não quero dar. É um espaço neutral, quase como uma terra de ninguém onde as pessoas passam, trabalham, conversam, mas sem aquela curiosidade pesada que às vezes encontramos noutros lugares.

Talvez por isso me sinta ali mais leve.

É também um ponto de encontro comigo mesmo. Sentado diante de uma folha de papel, ou diante da máquina de escrever, consigo olhar para dentro de mim com mais clareza. As emoções parecem ordenar-se, os pensamentos deixam de correr desordenados e acabam por encontrar um caminho qualquer.

E, curiosamente, o tempo ali passa de maneira diferente.

Antes havia horas que pesavam como pedras. Agora, naquele espaço, as horas caminham quase em silêncio, sem me ferirem. O tempo deixa de ser uma barreira difícil de atravessar e transforma-se apenas numa sucessão calma de minutos que se deixam viver.


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