A disciplina do vazio

Terça-feira, 26 de Outubro de 1976

De manhã mantive a rotina que nos últimos dias se tem tornado quase mecânica. Levantei-me cedo, tomei o pequeno-almoço e segui para o liceu, como tenho feito desde há já uma semana. A manhã passou sem história, sem sobressaltos, sem nada que se agarrasse à memória como coisa digna de registo. Apenas horas a escorrerem como água por entre os dedos.

A tarde trouxe o mesmo compasso conhecido. Fui para o Centro. Ali estudei, li e reli as matérias da manhã, como quem tenta convencer a cabeça a aceitar aquilo que o coração ainda não decidiu. Pelo meio dactilografei alguns poemas. A máquina parecia compreender melhor do que eu próprio o que se passa dentro de mim. Ainda me aventurei a escrever uma carta romântica, talvez mais como exercício do que como destino. Aproveitei os sentimentos confusos que vivem em mim e deixei-os correr pelo papel. Há dias em que a escrita serve para arrumar a alma, mesmo que ela continue desarrumada.

Ao fim da tarde fui para a Academia. Entreguei o corpo ao treino com uma certa ferocidade silenciosa. Cada músculo, cada articulação, foi chamado à ordem pelo esforço. O corpo queixou-se, mas a mente agradeceu. Há uma estranha paz no cansaço físico — como se a dor do corpo empurrasse para longe os fantasmas da cabeça.

Quando regressava para a paragem do trólei vi a Aida. Foi apenas um instante, um episódio sem significado real na minha vida. No entanto, bastou essa visão para que uma saudade antiga se levantasse dentro de mim: a vontade de voltar a ver a Dila.

Às vezes tenho a impressão de que a imagem dela ficou gravada no meu coração de uma forma quase perigosa. Como uma fotografia que não se consegue retirar da moldura. Pergunto-me se isto é amor, se é apenas memória, ou se já começa a parecer-se com uma espécie de loucura tranquila que não sei bem explicar.

Por agora prefiro não tirar conclusões. Amanhã é outro dia.
E o meu futuro emocional, esse, continua uma estrada coberta de nevoeiro.


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