O cansaço dos dias iguais

Quarta-feira, 27 de Outubro de 1976

Começa a tornar-se cansativo escrever. Não pela escrita em si, mas porque os dias parecem ter desistido de trazer histórias. Tornaram-se repetitivos, cinzentos, sem qualquer cor que mereça ser destacada. Um atrás do outro, como quadros pendurados numa parede esquecida, todos iguais, todos imóveis.

Às vezes tenho a impressão de que a vida passa por mim sem minutos nem horas. Corre silenciosa, como um rio escondido na neblina, e eu fico sem perceber muito bem onde começa ou onde acaba cada dia. Há manhãs, tardes e noites, é verdade — mas parecem apenas mudanças de luz, não mudanças de vida.

Cumpro as rotinas como quem segue um trilho já marcado. O liceu de manhã, o Centro à tarde, os livros, as páginas, os exercícios, a máquina de escrever que bate as suas letras com disciplina mecânica. Tudo acontece, mas nada parece verdadeiramente acontecer.

Quando chega a noite, escrever estas linhas transforma-se numa pequena batalha. Tenho de arrancar da esferográfica tinta suficiente para preencher as linhas vazias do diário. Nem sempre há vontade. Nem sempre há matéria. Às vezes sinto que estou apenas a empurrar palavras para dentro do papel para que o silêncio não vença.

E no entanto continuo.

Talvez porque escrever seja a única forma de provar a mim mesmo que o dia existiu.

Quando desligo a luz do candeeiro sinto-me um pouco como a própria noite: apagado, silencioso, coberto por uma escuridão tranquila que não pergunta nada e não exige respostas.

Amanhã virá outro dia.
Provavelmente parecido com este.
Mas, quem sabe, até o céu mais cinzento pode um dia distrair-se e deixar cair um pouco de cor.


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