A serenidade depois do estrago

Quinta-feira, 28 de Outubro de 1976

Hoje cumpri o dia. Sem desvios, sem fugas. Apenas cumpri.

De manhã fui para o liceu como manda a regra. Entrei nas aulas com uma disposição diferente, quase como se tivesse decidido apertar um parafuso dentro de mim. Empenhei-me com todo o meu ser no que os professores diziam, nas páginas abertas à minha frente, nos exercícios que pediam atenção. Senti um dinamismo que não tem aparecido nos últimos dias. Como se alguma coisa dentro de mim tivesse finalmente decidido acordar.

Talvez o dia de ontem me tenha ensinado uma pequena verdade: para manter a mente sã é preciso viver no tempo presente. Nem deixar que as memórias do passado façam casa dentro da cabeça, nem permitir que o futuro se transforme num teatro de fantasias e inquietações. O presente já dá trabalho suficiente.

À tarde fui para o CRM. Mas o Centro recebeu-me com uma surpresa amarga.

O gabinete do nosso grupo tinha sido vandalizado. Algumas maquetes estavam queimadas, outras destruídas. Restos de trabalho espalhados como se alguém tivesse decidido que destruir era uma forma de passatempo. Não havia ali propósito, apenas destruição pela destruição.

Se fiquei zangado? Claro que fiquei. Só um pedaço de madeira seria capaz de olhar para aquilo sem sentir revolta. Mas a zanga não me dominou. Respirei fundo, recolhi o que ainda podia ser salvo, arrumei os estragos como quem recolhe os pedaços de um pequeno naufrágio.

Depois sentei-me.

Abri os livros que tinha levado comigo e fiz aquilo que já tinha decidido fazer hoje: estudar. Escrevi também algumas páginas à máquina. O som das teclas, seco e ritmado, ajudou-me a afastar a irritação. No fim fiquei algum tempo apenas comigo e com os meus pensamentos, naquele silêncio que o Centro sabe oferecer como poucos lugares.

A verdade é simples, embora às vezes custe aceitá-la: a vida não pára por causa dos obstáculos. Eles aparecem, empurram-nos um pouco para trás, mas o caminho continua ali à nossa frente.

E o melhor que podemos fazer é continuar a andar.


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