Quando o silêncio começa a sarar
Sexta-feira, 29 de Outubro de 1976
Este novo ânimo que tomou conta de mim parece ter trazido uma pequena reparação interior. Como se alguém, em silêncio, tivesse tapado um furo por onde o meu ser se estava a escoar devagar, gota a gota, sem que eu desse conta.
Hoje senti-me mais inteiro.
A manhã correu sobre rodas. Não houve deslizes, nem aqueles pequenos embates invisíveis que às vezes nos desalinhavam o espírito. As aulas passaram com naturalidade. Ouvi, escrevi, acompanhei o ritmo do dia como quem caminha por uma estrada plana, sem pedras que obriguem a desviar o passo.
Fluiu.
Simplesmente fluiu.
À tarde segui para o CRM. O Centro recebeu-me como um velho abrigo que não faz perguntas. Abriu-me as portas e ofereceu-me aquilo que ali encontro sempre: silêncio e espaço. Espaço para estudar, para organizar ideias, para existir sem pressa.
Passei à máquina as matérias das aulas. O som das teclas ecoava no gabinete quase vazio. Havia qualquer coisa de musical naquele gesto repetido, como se estivesse a tocar num piano uma melodia que já conheço de cor. As palavras iam aparecendo alinhadas no papel com a disciplina de quem sabe o seu lugar.
E enquanto escrevia, senti novamente aquela calma discreta que começa a regressar devagar.
A noite caiu sem alarde.
Lá fora o céu escureceu com suavidade e, no horizonte, surgiu o crescente lunar — fino, delicado, como um recorte de prata pousado na escuridão.
Olhei-o por alguns instantes.
Há noites em que o mundo parece dizer-nos, sem palavras, que tudo continua no seu lugar. E que talvez nós também possamos continuar no nosso.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »